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Quem eram os Zelotes??
Quem eram os Zelotes??

 

os zelotes

os zelotes


Os zelotes. Origem do movimento. As sucessivas insurreições. O testemunho dos manuscritos do mar Morto.
Os filhos de Aarão. O duplo poder entre os zelotes. A verdade sobre Zacarias.
Os filhos de David. Os irmãos e lugares-tenentes de Jesus. Os que continuaram a luta contra Roma, e os que desertaram.
Ezequías-har-Gamala. O antepassado de Jesus. Suas operações contra Síria. É capturado e mandado crucificar por Herodes, o Grande.
Juda-har-Gamala. Filho de Ezequias, pai de Jesus. O que se sabe dele. Sua morte no curso da Revolução do Censo, no ano 6.
Os irmãos Santiago. Sobre a incerteza reinante no que concerne a seu posto dentro da família davídica. Sua morte na Palestina e em Jerusalém. A mistificação de Santiago de Compostela.


André, aliás Eleazar, aliás Lázaro. Irmão de Simão-Pedro e, portanto, de Jesus. Relacionado com um "tema de ressurreição".
A ressurreição de Lázaro. Sobre a dúvida de tal milagre, ignorado por Mateus, Marcos, Lucas e Paulo. Possível explicação.
Judas-bar-Judas, o irmão gêmeo de Jesus, aliás Tomás, aliás Lebeo, aliás Tadeu. O procurador Cuspio Fado o manda decapitar.
Felipe. É dos que abandonaram o movimento depois da morte de Jesus. O que a história ignora dele.
Mateus. É dos que desertam do movimento. Provavelmente tio de Jesus, possivelmente pai de João da Gischala, outro chefe zelote que destacará durante o assédio de Jerusalém.
Bartolomeu, aliás Bar-Thalmai. Executado por ordem do procurador Cuspio Fado, depois de sua captura em Iduméia.
Iochanan ou João o Evangelista. Também irmão de Jesus. Não esteve jamais em Roma, mas foi o chefe religioso dos zelotes. Morreu em Jerusalém ao mesmo tempo que Santiago o Menor.
As "línguas de fogo" do Pentecostes. O que foi em realidade o "dom de línguas". Significado psiquiátrico da "glossolalia". O que era o ritual de Tikun Chabouth.


Menahem, o "consolador" anunciado por Jesus. Neto de Judas da Gamala, toma Massada, logo Jerusalém, faz-se proclamar rei, cai em uma tirania sangrenta e por último é executado pelos israelitas.
Simão-bar-Cleofás. Descendente de David também, é crucificado em Jerusalém depois de um novo levantamento.
Simão-bar-Kokheba. Chamado o "filho da estrela", apoiado pelo Rabbi Skiba, desencadeia a grande revolução do ano 135. A princípio obtém a vitória, mas logo é esmagado pelas legiões romanas, e será o responsável pelo fim de Jerusalém como nação.
Maria, mãe de Jesus. Sua genealogia. Suas dúvidas referentes à divindade de seu filho suscitaram a criação do personagem imaginário de Maria de Magdala. Morreu também em Jerusalém.
As grandes famílias: asmonea, davídica, herodiana, disputam o trono de Israel. A meio-irmã de Maria mãe de Jesus não é outra que Mariamna II, aliás Cleópatra de Jerusalém, novena esposa de Herodes o Grande. Seus complôs e seu final.
O verdadeiro Herodes Filipo II: Lysanias, meio-irmão de Salomé II e seu marido real. O por que do embrulho criado pelos monges copistas.

 


SEGUNDA PARTE : OS SEGREDOS DO GÓLGOTA
Jesus-bar-Juda. Como se censurou a Tácito, Suetonio e Flavio Josefo, para melhor sustentar a lenda de um deus encarnado.
Jesus-Barrabás. Impossibilidade de uma substituição penal em Jerusalém naquela época. Por que se criou esse personagem imaginário, destinado a mascarar a atividade zelote de Jesus.
O crime do Templo. O caminho de Jericó à Jerusalém. O ataque dos mercados e dos peregrinos. A maquiagem das palavras nos relatos iniciais.
A verdade sobre a Paixão. Impossibilidade da farsa da zombaria, contrária às leis romanas, e sua explicação; os fatos reais sobre os quais se abordou ulteriormente.
O segredo de Simão de Cirene. Uma controvérsia discreta entre os exegetas dos primeiros séculos. O que mascarava essa discussão.
A evasão de Jesus. Capturado seis semanas antes de Pascal, evadido com o acordo tácito de Pilatos, revolta a Samaria. É capturado de novo em Lydda e devolvido à Jerusalém, onde é crucificado.
Duas quedas em desgraça bastante misteriosas. Pilatos é denunciado pelos saduceus por ter permitido a evasão de Jesus e, por conseguinte, a revolução dos samaritanos. É exilado à Vienne, onde morre. Por sua vez, Herodes Antipas é também exilado à Vienne. Motivos reais.
Quando morreu Jesus? Por que são errôneos os dados avançados pelos exegetas oficiais. Como calcular exatamente o dia e o ano da morte de Jesus.


O mistério da tumba. Teve Jesus o privilégio de contar com uma tumba ritual, ou foi arrojado à fossa da infâmia, como todos os condenados à morte?
Sobre a incineração do cadáver de Jesus em Makron, Samaria, em 1 de agosto de 362, por ordem do imperador Juliano. Impossibilidade de que se tratasse de João, o Batista.
Ressuscitados da sexta-feira santa. Impossibilidade de admitir tal conto. Tratava-se de combatentes zelotes ocultos no cemitério ritual do Monte das Oliveiras.
A sombra de Tibério. Por que o imperador pensava fazer de Jesus um tetrarca, ou inclusive um rei de Israel. Jesus era um peão em sua estratégia contra os partos.
Aos mortos da Massada
Reprova-me que, de vez em quando, entretenha-me com Tasso, Dante e Ariosto. Mas é que não sabem que sua leitura é a deliciosa beberagem que me ajuda a digerir a grosseira substância dos estúpidos Doutores da Igreja? É que não sabem que esses poetas me proporcionam brilhantes cores, com ajuda dos quais suporto os absurdos da religião? ...
BENEDICTO XIV, Papa
Resposta ao R.P. Montfaucon (1)

 

Introdução
Um iniciado pode ser o instrumento de uma fatalidade assassina, cujo fim escapa a nossa compreensão...
MAURICE MAGRE, Priscilla d'Alexandrie
No recinto do Templo reservado aos homens, os judeus piedosos se reuniram já, voltados para o este, com a cabeça coberta pelo taleth, com os tephilim em mão, a ponto de salmodiar a oração ritual logo que despontasse o sol: "Louvado seja, Oh Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, Você que criou a luz e conservou as trevas... Louvado seja, Oh Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que deu ao galo a inteligência para distinguir o dia da escuridão ..."
Na noite escura do último dia de Nisán, o escuro veludo azul do céu estava salpicado ainda por mil diamantes. No poente, mais escuro, declinavam as estrelas de Khus, o Arqueiro, enquanto que no levante, mais claro já, viam-se ascender pouco a pouco as de Ab Menkhir, a Baleia. Foi então quando o grande galo solitário do Templo, o único tolerado na Cidade Santa, e ao que alimentavam com trigo as mãos frágeis das filhas dos cohanim, aquele ao que chamavam o Avisador, aquele galo cantou, advertindo deste modo aos levita de guarda da saída do sol.
Então, de toda a cidadela Antonia se elevou um clamor ritmado. A coorte da Legião I, formada em quadrados atrás de sua águia e seus pendões, e conforme era costume em Síria, saudava a aparição do sol, e os veteranos, com o braço direito levantado, de cara ao astro rei, repetiam a tripla saudação ao "sol invictus". Não era acaso ele, sob o nome de Mitra, quem partia invisivelmente a cabeça deles, assegurando assim a glória de Roma em todos os combates? (2)
Com tonalidades amareladas, amarantáceas e alaranjadas a crescente luz alagava o horizonte em amplos mantos paralelos e ascendentes, e Jerusalém, como respondendo à chamada do profeta: "recuperava sua luz ..." (3) Logo chegaria a alvorada; o frescor noturno desvanecia-se progressivamente, e mil aromas diversos se misturavam ao desejo da brisa e de suas mudanças de humor, jogando como um gatinho jovem por ruelas e encruzilhadas. Ao aroma de metzo, ferik, rechta ou difna, que coziam lentamente da véspera no forno das famílias ricas (pois Judéia sofria o açoite da fome), acrescentava-se o aroma, algo ácido, da intimidade das mansões que ao fim tornaram-se a abrir ao exterior, e também o perfume de ervas aromáticas procedentes dos bosques próximos. Nos abrigos das velhas dependências do exterior da cidade, sacudindo-se de sua pelagem poeirenta o frescor da noite passada, os pequenos asnos cinzas sopravam sob os primeiros raios de sol, liberando o acre vapor de suas camas de palha. E aqui, dominando tudo, flutuava esse poderoso aroma, formado pelo suor, o couro e as armas engraxadas, que acompanham em qualquer parte aos soldados.
Os cavaleiros do I Augusto estavam, efetivamente, ali, fiéis à terra, completamente silenciosos, na cabeça de suas guarnições alinhadas ao longo dos fossos de defesa. Atrás deles, à sombra rosa e ocre das fortificações muradas, estava totalmente aberto à porta de Damasco, que eles jamais franquearam montados em suas cavalgaduras, dado que a entrada à Cidade Santa estava vedada aos cavalos, tanto por respeito aos costumes religiosos judaicos, como por sua inutilidade em uma cidade tão acidentada como Jerusalém. E a asa legionária, acampada muito perto da cidade, acudira simplesmente ao encontro do tribuno de cavalaria, seu chefe, que aconchegou-se no palácio do procurador, em uma operação preliminar a uma mudança de guarnição.

 


Os homens e seus chefes foram equipados exatamente igual à seus companheiros fiéis. Um grande escudo oblongo cobria o flanco esquerdo do cavalo, a longa espada regulamentar pendia da cela ao mesmo lado. A sua direita o legionário conservava a adaga curta e larga. Mas além da lança dos legionários fiéis, este levava em bandoleira um aljava de couro com três flechas de ferro cortante como uma navalha de barbear.
Separado deles, perto de um grupo de oficiais silenciosos, o Tribuno de Cavalaria ia e vinha lentamente: parecia estar esperando algo. De repente ouviram os passos de uma pequena tropa armada, chocando-se contra as pedras do caminho, e pouco depois apareceram, à luz do amanhecer, uma trintena de homens. Era o destacamento explorador que o Tribuno enviara em vanguarda.
A cavalaria do I Augusto devia abandonar seu acampamento próximo à Jerusalém, onde era de pouca utilidade em caso de distúrbios urbanos, para instalar-se em Cesaréia Marítima, nos limites da planície do Saron, frente ao mar. E o Tribuno se alegrou de abandonar Jerusalém, essa cidade de fanáticos, para encontrar-se de novo com a tranqüilidade das guarnições romanas e também com os corpos quentes e mórbidos das cortesãs iduméias. Porque os quadros superiores de Roma não tinha direito a levar consigo a suas esposas aos territórios de ultramar; o império temia, e com razão, que o clima, ao que as sensuais romanas resistiam bem pouco, e as influências sobre o caráter, abrandassem às guarnições legionárias.
Não obstante, antes de empreender a marcha, à alvorada, pelo caminho sinuoso que descendia através do vale do Terebinto, ainda meio escuro, e no que tanto cavaleiros como cavalos constituíam uns alvos ideais para os arqueiros da dissidência judia, o tribuno de cavalaria mandou um destacamento a efetuar um reconhecimento até uma certa distância. Depois, uma vez o sol estivesse no alto, a asa legionária cavalgaria por um terreno descoberto, onde estaria em condições de responder a qualquer emboscada, e de castigar severamente a seus eventuais agressores.
O centurião que estava ao mando das três decúrias de exploradores, reordenou as filas, ordenou o alto, e logo, rígido sob sua capa escarlate, com o braço direito levantado, saudou o magistrado militar:
- Centurião, como está o caminho?
- Tranqüilo e seco, tribuno ...
Nessas regiões mediterrâneas, bastante baixas de latitude, as auroras e os crepúsculos são muito curtos. E o sol nascente já começava a lançar seus brilhos pelo horizonte, irradiando uma nova luz que abraçava com seus raios as avermelhadas muralhas da antiga cidade de Adoni Tsedek.
No alto, dominando a Cidade Santa, o ouro e o cobre vermelho do teto e das gigantescas portas do novo Templo lançavam um insuportável e deslumbrante fulgor. E sob o ligeiro calor que insidiosamente se deixava sentir, a brisa de repente levou um aroma ao mesmo tempo adocicado e nauseabundo.
Farejando esse ligeiro vento com um gesto de asco, o tribuno se dirigiu lentamente para o ângulo do recinto novo, de onde podiam distinguir-se, ao longe, as massas da torre Psephinos. Entre esta e a porta de Damasco se elevava um montículo que os judeus chamavam Gólgota, uma palavra hebréia que significa crânio. Segundo uma de suas inverossímeis lendas, era ali onde repousava o corpo incorruptível de Adão, e era precisamente o crânio deste o que estava revestido pela terra daquela colina estéril. Calva como um lugar maldito pelo céu e pelos homens, a colina tinha, tanto de dia como de noite, um aspecto sinistro. Ali era onde, de dia, precipitavam-se em busca de pasto os corvos e abutres. Ali era onde, de noite, rondavam com o mesmo fim o chacal e a hiena. Pois assim é o destino dos lugares de execução, que faz que a morte alimente à vida.


No topo do monte calvo se erguiam alguns postes patíbulos, que pareciam esperar sua sinistra travessa, e também duas cruzes completas, recortando-se sobre o céu claro da Judéia. O tribuno de cavalaria, seguido por alguns oficiais, aproximou-se lentamente, e, ao chegar a curta distância, deteve-se e olhou.
Nas cruzes havia dois crucificados. Estavam mortos. E possivelmente já da antevéspera. Mas longe estavam já os tempos em que Roma, em sua tolerância religiosa, permitia às famílias dos condenados a morte não escravos que descessem do ignominioso patíbulo o cadáver do ser querido antes do pôr-do-sol, para, segundo a lei judia, "não manchar a terra Santa de Israel". (4)
Por isso era que, apoiados sobre sua lança, com o nariz tampado por sua capa de sua classe marrom, alguns soldados da III Cyrenaica, embora lhes revolvesse o estômago, montavam um guarda, apesar de tudo vigilante, frente à Gólgota. E é que, por ordem do Tibério Alexandre, os corpos tinham que permanecer nas cruzes patíbulas até que a putrefação e os rapazes levassem a termo sua ação natural. Assim, conforme tinha declarado o procurador, já não se veria renascer jamais aquela absurda lenda que tinha seguido à execução de Jesus, o "rei dos judeus", filho primogênito de Judas o Galileu, e crucificado quatorze anos antes, em tempos do procurador Poncio Pilatos. Porque seus faccionários, os zelotes, bem corrompendo ou embebedando à tropa do Templo encarregada da vigilância da tumba, conseguiram apartar a laje sepulcral, recuperando o cadáver, previamente embalsamado com mirra e aloés para este fim, e o levaram em segredo à Samaria, onde os judeus não podiam penetrar nem efetuar pesquisa alguma. Ali o tinham inumado secretamente em uma tumba na aparência ocupada já por um tal Ioannes, ao que os judeus chamavam o Batista. E logo seus seguidores afirmaram que ressuscitara.
Esta vez os criadores de lendas o deixariam francamente difícil, já que não havia muitas possibilidades de que, ante os imundos despojos que ficassem fixados a cada um dos patíbulos, pudessem montar semelhantes fantasias.
Cada uma das cruzes levava, atrás da cabeça do crucificado, uma placa em que se gravou a fogo uma inscrição trilingüe. Na da esquerda podia ler-se: "Simão-bar-Judá, crimes e banditismo". Na da direita inscrito: "Jacob-bar-Juda, chefe zelote, idem".
Complacente, o tribuno comentou para aqueles dos centuriões que não sabiam ler:
- O da esquerda é o famoso Simão, chamado também "a pedra"; era o irmão de Jesus, o rei dos judeus, e lhe aconteceu como rival do Herodes Agripa, como pretendente ao trono de Israel. O da direita é Jacobo, seu outro irmão, que ao final foi o preferido de suas bandas, mas sua morte tampouco resolve nada, porque deixa um neto, Menahem... Enquanto Roma não tenha aniquilado esta família, não teremos paz nestas regiões.
Silenciosos, envoltos em suas capas vermelhas, os centuriões contemplavam os corpos dos justiçados, pois a asa legionária aquartelada na Betânia não havia nem assistido nem participado da execução, já que lhe mantiveram em reserva para o caso de que se produzissem possíveis distúrbios. Ao redor das duas cruzes, manchadas pela urina e os excrementos dos condenados, formavam redemoinhos se enxames de moscas zumbindo. E o tribuno de cavalaria, por sua parte, revivia a espantosa cena dessa dupla crucificação.
Naquela manhã, muito cedo, a turma de guarda na cidadela Antonia arrojou as notas de congregação geral, notas repetidas pelos outros diversos aquartelamentos. Pouco depois, as grades de Antonia abriu-se ao alto da dupla escada de pedra, e apareceram, em filas apertadas, os manípulos. Os homens foram em equipe de assalto, levando unicamente a espada curta e o pilum ou lança, e o escudo ao braço esquerdo. Tomaram a direção do Gólgota, lugar incomum das execuções, para o que convergiam deste modo todos os outros destacamentos. Centúria atrás centúria, o som rítmico de seus passos sobre o pavimento tinha congregado pelas ruelas e detrás das janelas às multidões judias de todos os bairros próximos, silenciosas e graves.

 


Formados em quadrado, os dois terços da coorte dos veteranos colocaram-se ao redor da fúnebre colina, dando-lhe as costas e fazendo frente à multidão, mantida a respeitosa distância. De Antonia à Gólgota as tropas ordinárias estavam cotovelo a cotovelo, apertando aos curiosos contra as muralhas, e bloqueando em tripla fila àqueles que, em quantidades inumeráveis, vinham amontoar-se pelas ruelas transversais. Esperaram longo momento. No intervalo, da cidadela tinha saído uma carreta atirada por um escravo, escoltada por alguns legionários ligeiramente armados. Na carreta havia dois braseiros, sacos de carvão de lenha, foles, e meia dúzia de flagra, espécie de grandes maços, cuja manga de madeira se convertia em ferro no extremo superior e levava quatro caixas com bolas de bronze e cujos anéis eram planos e oblongos. E um longo murmúrio temeroso tinha deslocado então entre a multidão: "Os látegos de fogo... Os látegos de fogo...".
Uma vez chegados à Gólgota, os soldados que, segundo o costume romano, deviam exercer o ofício de verdugos, dispuseram os braseiros, colocaram carvão, acenderam e atiçaram o fogo com ajuda dos foles de couro. Quando o carvão já não era mais que brasas ardentes inundaram nele as cadeias dos flagra, cuidando que as mangas de madeira não estivessem ao alcance das faíscas acesas.
Bruscamente a multidão se agitou, e, voltando-se, os legionários a retiveram e a fizeram retroceder a golpes de escudo ou de mangas de pilum. Acabava de sair de Antonia um novo cortejo.
Precedidos e emoldurados pelos homens de um manípulo completo, dois homens de idade avançada caminhavam lentamente, com o torso nu. Tinham-lhes baixado as vestimentas até os rins, e avançavam com os braços em cruz, atados a uma madeira que, à maneira de jugo, repousava sobre seus ombros e sua nuca. Do pescoço de cada um deles pendurava uma prancha que levava uma inscrição em latim, grego e hebreu: a que devia figurar atrás de suas cruzes. Seus rostos estavam pálidos e marcados, envoltos por uma cabeleira e uma barba hirsutas, seus olhos ardiam de febre, e de seus flancos palpitantes sobressaíam das costelas.
O curto trajeto de Antonia à Gólgota realizou-se, em um silêncio de morte, ao passo lento dos condenados. Para dar maior solenidade à dupla execução, Tibério Alexandre tinha proibido o habitual acompanhamento das chorosas. Ao pé da colina, o manípulo deteve-se sob uma ordem breve, e só uns poucos soldados empurraram com suas lanças aos dois homens para o topo, ao encontro com seus verdugos.
Primeiro despiram completamente aos condenados, logo lhes conduziram para o poste vertical de sua futura cruz. Ali, de uma rasteira, fizeram-lhes cair de bruços, de cara contra a madeira.

 


Sujeitaram-lhes fortemente a cintura com uma cadeia, e o pescoço com outra, os braços seguiam atados à travessa que levavam em cima. Dois casais de verdugos tiraram, cada um, um flagrum do fogo do braseiro e colocaram em ambos os lados de cada condenado. O situado à esquerda devia golpear em primeiro lugar, e o outro devia seguir. Voltaram a cabeça e esperaram; o centurião exactor mortis levantou a mão, e baixou-a. Os verdugos situados à esquerda balançaram suas cadeias, ao vermelho branco, e, com toda sua força, golpearam os flancos dos dois condenados. Um horrível alarido brotou do peito dos condenados, mas os verdugos, depois de um breve lapso de tempo, arrancaram a carne viva dos flagra, e já os dos segundos executantes batiam do outro lado, com o mesmo breve lapso de espera e o mesmo golpe para sua extração da carne. E as elásticas e pesadas descargas de ferro vermelho vivo continuariam abatendo-se com cadência, em meio aos gritos de sofrimento e de um aroma de carne chamuscada, abrindo nos flancos e rins dos condenados longos sulcos negruscos, onde, como magras lágrimas, destilavam o soro e o sangue. A intervalos regulares voltavam a introduzir seus flagra no fogo dos braseiros, e os recuperavam de novo quando estavam bem vermelhos.
A lei judia (que em matéria de castigo não utilizava mais que o látego de couro) limitava a trinta e nove o número de chicotadas que um condenado podia receber. Mas a lei romana não fixava nenhum limite no caso de uma condenação a morte. De todo modo, e a fim de que os condenados não morressem sob os espantosos sofrimentos do flagra e padecessem integralmente a crucificação que devia seguir, o exactor mortis responsável pela execução, ao ver que um dos dois homens se desvaneceu, ordenou ao fim: "Satis..." (5). Os verdugos se detiveram, mas não obstante um deles cruzou uma última vez as costas de sua vítima. O látego de videira do centurião assobiou e lhe golpeou em pleno rosto. "Hei dito bastante ...", exclamou irado. O homem se levou com a mão a sua cara tumefacta, e não pronunciou palavra.
Desataram aos condenados e os separaram dos postes.
A continuação desenvolveu-se como todas as crucificações. Fez-se beberem aos dois homens a bebida calmante oferecida pelas mulheres de uma confraria judia que assistia aos condenados a morte. Continuando, sem olhares, puseram-os de costas contra o chão, e a areia e o cascalho sujo penetraram nas feridas supurantes, pelo próprio peso do corpo, fazendo estalar as ampolas e arrancando longos gemidos dos dois desafortunados.
Simultaneamente cravaram os verdugos um grosso prego nas palmas de suas mãos, e os dobraram a golpes de martelo, fazendo penetrar a cabeça dos pregos na carne dos dedos. Depois levantaram cada homem, de maneira que a madeira ao qual assim parecia introduzira-se no oco disposto para tal fim no poste patíbulo. Ataram-no todo em diagonal, e, para que o peso do corpo não rasgasse a palma da mão, cravaram, sempre a martelada limpa, uma enorme espiga sob as partes sexuais de cada homem, a fim de que suportasse a carga. E o fio do ângulo de semelhante suporte, ao ferir o períneo, acrescentava ainda mais dor ao suplício do condenado. Por último, e com ajuda de um novo prego para cada um, fixaram ambos os pés, fazendo ranger os ossos, e logo desataram os antebraços das ligaduras anteriores. A fim de que os futuros cadáveres pudessem ser atacados comodamente pelos animais carnívoros, seus pés estavam a menos de dois palmos do chão.
A tudo isso terei que acrescentar que os membros inferiores e superiores dos dois rebeldes não foram previamente quebrados, sem dúvida para que os condenados permanecessem mais tempo com vida. A sede, o calor, as moscas deveriam aumentar os dores físicas, já terroríficas por si mesmos, pois o sangue e o soro que destilava as costas faziam que se aderissem à rugosa madeira as feridas em carne viva. Continuava a febre.

 


Para o entardecer acenderam diante deles um abundante fogo de lenha, tanto para iluminar o Gólgota para permitir aos legionários da legião siria (6) que se esquentassem no frio das noites de Nisán. Além disso, e por prudência, outras duas tochas ardiam permanentemente detrás das cruzes, no alto de umas varas plantadas no chão. E pouco a pouco, com a noite, as mãos dos crucificados se crisparam ao redor das enormes pontas dos calvos, e os dedos, já mortos, produziam o efeito de uma aranha encolhida sobre si mesmo. As cabeças pendiam sobre o peito, e os corpos desabados, em ziguezague, causavam a impressão de uma suprema renúncia à vida. Para os dois moribundos, que tremiam de febre e aos que a asfixia ganhava pouco a pouco, cada hora equivalia a um dia, e cada dia a uma semana.
Apesar disso, pela segunda vez lhes negou uma morte piedosa e doce. Por volta do meio-dia seguinte, obedecendo às ordens recebidas, o chefe da patrulha de controle deu uma ordem, e um legionário de rosto curtido pela idade e as campanhas aproximou-se dos imóveis crucificados. Fez deslizar-se e descer a ponta de seu pilum sob a axila direita e, apoiando-a, o soldado foi encontrando o relevo das costelas. À altura de uma delas se deteve e, lentamente, introduziu sua lança: da ferida fluiu um pouco de sangue. O agonizante estremeceu-se ligeiramente e voltou a respirar. A seguir o legionário dirigiu-se à segunda cruz, e repetiu o processo. E assim o suplício durou mais.
Timidamente, um centurião perguntou: "Tribuno, não foi a conseqüência do nascimento dessa superstição judia sobre a pseudo-ressurreição daquele Jesus, por isso Tibério César promulgou o decreto que castigava à pena capital aos que deslocassem a laje das tumbas para tirar os cadáveres delas ...?".
O tribuno refletiu um instante: "Sem dúvida, provavelmente foi isso. Mas também para evitar que os da seita de Hécate se apoderem dos despojos fúnebres que necessitam para suas invocações maléficas ...".
Seguiu um silêncio. Logo, acompanhado por seus oficiais, o tribuno de cavalaria retornou sossegadamente à Porta de Damasco, onde esperavam os cavaleiros e cavalos, procedentes de seus aquartelamentos de Betfage e Betânia. Fez um sinal a um centurião, ouviu-se uma breve ordem, e todos montaram em suas cavalgaduras. Houve uma segunda ordem e, em silêncio, a asa legionária ficou em movimento, ao passo, na claridade da manhã, com o único ruído dos cascos de seus cavalos ou o tinido de suas armas.
O fogo da noite acabava de morrer em suas brasas ainda avermelhadas, e dos últimos ramos com que o alimentaram se elevava ainda, às vezes, um magro fio de fumaça cheirosa e azul, símbolo de uma doçura estranha a esses lugares, e que não chegava a cobrir o nauseabundo aroma que chegava das cruzes patíbulas.
A certa distância, posados nos postes que ainda estavam livres, grasnaram um casal de corvos, e logo alisaram suas plumas. Invisível, mas alegre, um grilo lançou desde sua minúscula toca seu canto para o sol.
Então uma sombra vaga pareceu descer ante a luz. Em um vôo silencioso e elástico, levantando com suas asas o pó amarelo do Gólgota, vários abutres abatiam-se pesadamente sobre os crucificados. Os primeiros em chegar lançavam já para o abdômen, à maneira de seu látego, seus pescoços largos e cortados terminados em um pescoço farpado e cortante. E com raivosos grunhidos os abutres pinçavam nos cadáveres, afundando sua cabeça até o coração mesmo das vísceras, salpicando-se mutuamente com as vísceras, e com sua plumagem já manchada.
Os legionários sírios contemplavam tranqüilamente este terrível espetáculo, apoiados negligentemente em seu pilum. E um deles, depois de ter bocejado de aborrecimento e de sono, pronunciou o velho provérbio aramaico: "Esteja onde esteja a carniça, os abutres se reunirão em volta dela ...".

 


Um pouco afastado, o decurião que estava ao mando do pequeno grupo de guarda se voltou, com desprezo, e colocando sua mão por cima da viseira de seu quepe, contemplou o céu.
Altíssimo, sobre as nuvens, acabava de aparecer um vôo de cegonhas. Estas aves brancas, em formação, batiam suas asas negras a um ritmo majestoso e regular, e se dirigiam por volta do mar. Vinham de muito longe, de além das ruínas de Babilônia e de Persépolis, e logo que começaram os dias de bonança, quando o clima era ainda temperado, empreenderam a fuga para evitar o tórrido verão dessas regiões.
O decurião seguia-as com o olhar, silencioso e grave. Era um grego, um dos últimos descendentes dos bactríadas, destronados e dispersados antigamente pela invasão dos Sakas, que desceram de uma parte longínqua da Ásia, e nunca pisaram no chão da Grécia. Oprimiu-lhe o coração, com seu pesar. As cegonhas foram sobrevoar sua verdadeira pátria; elas atravessariam possivelmente o céu de Hélade por cima de Corinto, ou, roçando a harmonia dórica do Partenon, iriam aninhar no coração da Acrópoles pelo Pelargikon das nove portas que, como suprema honra, os atenienses tinham batizado como a "Muralha das Cegonhas". E à manhã seguinte, quando remontassem o vôo, iriam beber, sedentas, às águas proféticas do vale do Delfos.
Eram os símbolos viventes da Piedade e da Bondade no mundo antigo, e conheceriam, sem compreendê-la e sem apreciá-la, uma paz que o decurião ainda não conhecera jamais, em uma pátria ainda não manchada por dogmatismos limitados nem por fanatismos sanguinários, e onde o pensamento do sábio permanecia livre e imortal.
Por orgulho ante seus homens, o bactríada se tragou as lágrimas que pugnavam por aparecer em seus olhos, e, com seu pesar, seus lábios murmuraram, pensando nos formosos pássaros que se perdiam no espaço, a saudação e o desejo da antiga Acaya: "Sede felizes ...".
Mas, devido à emoção daquele instante, não advertiu o fúnebre presságio. Com efeito, as cegonhas voavam da mão direita à mão esquerda, e isso era o anúncio de desgraça para a terra que acabavam de sobrevoar.
NOTAS COMPLEMENTARES
Para falar a verdade, os cavalos não estavam absolutamente proibidos na Cidade Santa, embora o Deuteronômio (17, 16) precisa: "O rei não deverá multiplicar seus cavalos". Entretanto, parece que sua circulação foi regulamentada e, sobretudo, proibida nos bairros próximos ao Templo; isto era por causa de seus excrementos, que sujavam as sandálias de quão fiéis subiam ao santuário. Por isso as quadras de Salomão (se é que se tratava realmente das quadras deste rei, e não simplesmente das dos templários, coisa que em troca sim que é certa) foram construídas nos limites do recinto sudeste da cidade, o mais longe possível do Templo, e limítrofes com a Porta da Fonte, frente ao monte do Escândalo (veja-se plano de Jerusalém, cap. 27).
Primeira parte - Os zelotes
Tudo está tirado de seus próprios autores! Para que necessitamos de outros testemunhos, se já lhes contradizem bastante entre vós mesmos ...

Celso, Discurso verdadeiro
1 - Os zelotes
O mundo só será salvo, se o for, por insubmissos.
André Gide
Dá-se o nome de "discípulos" aos que estão submetidos a uma disciplina. Esta palavra vem do latim disciplina, que significa regra, lei. Entre os judeus, esta disciplina é a Lei, a Torá. E agora sabemos que os messianistas, os zelotes ou os sicários eram fanáticos da Lei. Queriam instaurar em Israel uma teocracia em que não haveria mais rei que Deus, e não haveria Mestres, a não ser juízes simplesmente. Rechaçavam rotundamente toda prestação de juramentos. Releiamos os Evangelhos:
"Mas não lhes façam chamar rabbi, porque um só é seu Mestre..." (Mateus, 23, 8).
"Mas eu lhes digo que não jurem de maneira nenhuma (...) Seja sua palavra: sim, sim; não, não; tudo o que sucede disto, do mal procede". (Mateus, 5, 34-37).
Pois bem, entre os manuscritos descobertos perto do mar Morto, nas grutas do Khirbet-Qumran, encontra-se um "Manual de disciplina", espécie de ritual de uma estratégia militar mesclada com ritos ocultos e cabalísticos. Nele se "ordena" o combate, como uma liturgia oculta, os estandartes levam nome de anjos, que são ao mesmo tempo nomes de poder (como uma cabala), e esse ritual de uma batalha ao mesmo tempo oculta e militar evoca indevidamente o local de Jericó (Josué, 6, 5).
Se o depósito de Qumran se realizou para pôr os manuscritos portadores das Escrituras sagradas em lugar seguro, é porque importantes distúrbios ameaçavam sua existência.
Essas Escrituras sagradas, compostas por manuscritos de diversas épocas antes de nossa era, deveram gozar do privilégio de todas as Santas Escrituras entre os judeus. Expressam a palavra divina, ou a dos profetas do Senhor. Seriam transcritas sobre peles de animais puros, com a tinta ritual, por escribas especialistas. Se estes cometiam algum engano de transcrição, detinham-se imediatamente, não podia efetuar-se nenhuma retificação (nem raspar), simplesmente se relegava o texto interrompido e imperfeito a um lugar especial, chamado ginnza, junto com os quais lhe precederam, e voltava a começar a citada transcrição. Uma vez terminada, seria objeto de uma espécie de veneração por parte dos fiéis da comunidade israelita. O leitor seguiria o texto linha por linha, palavra por palavra, com ajuda de um instrumento especial, a "mão da Torá". Esta consiste em uma vara de madeira preciosa, terminada em uma minúscula mão de bronze, prata ou ouro.
Uma vez efetuado o depósito de Qumran, as Escrituras sagradas seriam envoltas cuidadosamente em um pano de linho, e depositadas em vasilhas de terra cozida, no seio da gruta. Tendo em conta o respeito imenso que testemunham os fiéis à tais Escrituras sagradas, é inimaginável supor que para envolver tomassem qualquer trapo usado. Isso constituiria uma autêntica mancha ritual para os manuscritos, que, assim profanados, fossem inutizáveis. Portanto, o que se utilizaria para envolver os citados textos seriam peças de linho novo. Prática que, em realidade, é universal neste campo.
Pois bem, em janeiro de 1951, no Instituto de Estudos Nucleares da Universidade de Chicago, procedeu-se a uma análise dos elementos vegetais que formavam esse tecido, com ajuda do "carbono 14". Este procedimento, descoberto pelo doutor W. Libby, é já clássico para as investigações arqueológicas, e se apóia no seguinte princípio: todo ser vivo, vegetal ou animal, absorve ao respirar "carbono 14", corpo radioativo que permanece no organismo inclusive depois da morte do vegetal ou do animal. Mas o grau de radioatividade diminui de forma regular à medida que o tempo passa, e esse grau pode medir-se. Ao apreciar desta maneira o resíduo, pode estabelecer-se com uma considerável precisão a data em que a matéria orgânica (vegetal ou animal) deixou de viver. Este método foi suficientemente controlado como para que já não fique em dúvida seu valor.


E no que concerne às malhas novas que serviram para envolver os manuscritos do mar Morto, quando foram postos em lugar seguro nas grutas de Khirbet-Qumran, o "carbono 14" permite afirmar que o linho com o qual estão elaborados foi compilado 1917 anos antes do experimento de Chicago. Deduzamos 1917 de 1951, e teremos o ano 34 de nossa era, data média da crucificação de Jesus pelos romanos (7). Mas com o "carbono 14" há uma margem possível de engano de meio século, antes ou depois dessa data. De modo que esses documentos puderam ser ocultos desde ano 15 antes de nossa era, aos 85 desta. Tenhamo-lo em conta.
Isto demonstra, não obstante, que posto em lugar seguro os manuscritos foi efetuado em pleno período de distúrbios. Agora bem, os Evangelhos não nos falam nem da sangrenta revolução do Censo, quando teve lugar o pretendido nascimento de Jesus em Presépio, nem de uma revolução que coroasse o período em que foi crucificado em Jerusalém pelos romanos. E em lugar de uma época bucólica, cheia de doçura e de paz, à beira do lago do Genezaret, encontramo-nos historicamente inundados em uma das inumeráveis e sangrentas revoluções judias. O leitor que estude a história do cristianismo nos livros piedosos continuará ignorando que do ano 68 antes de nossa era ao ano 6 desta (a famosa Revolução do Censo, da qual não se fala jamais) houve trinta e seis revoluções judias, que essas revoluções representam milhares de judeus messianistas crucificados por Roma, cidades e povos incendiados e arrasados várias vezes, campos desolados, rebanhos aniquilados e uma fome sangrenta. Esse leitor continuará ignorando que se estabeleceram oficialmente governos judeus.
Entre o ano 66 e o 58 a.C., quer dizer, em oito anos, contam-se na Judéia vinte e seis movimentos surgidos. E isso que as fontes que nos falam do tema emanam de Flavio Josefo, partidário da colaboração com Roma, cujos manuscritos perderam-se e foram substituídos por cópias dos séculos IX e XII de nossa era, efetuadas no fundo dos conventos pelos famosos monges copistas.
Membros da dinastia asmonea, expulsos do poder por Pompeyo, arrastaram ao povo à revolução oito vezes entre o ano 58 e o 27 a.C. Organizaram-se umas "guerrilhas" que tentavam periodicamente golpes de força. No ano 43 a.C., Ezequías, pai de Judas da Gamala, de estirpe real e davídica, já fazia tempo que perseguia às legiões romanas. No final o capturaram e crucificaram. Costobaro (27 a.C.), Bagoas (6 a.C.), Judas da Gamala e Matthiatas (5 a.C.) continuaram a luta contra Roma.
No ano 6 a.C. Levantou-se um governo federal judeu, frente aos estabelecidos por Roma, que agrupavam por uma parte a Traconítide, a Batania e a Auranítide, por outra parte Galiléia e Perea, e por último Judéia, Iduméia e Síria. Esse governo judeu é o de Simão em Jericó, do pastor Athronge na Judéia e de Judas da Gamala, filho de Ezequías, em Séforis.
As legiões romanas esmagaram este último movimento, e dois mil patriotas judeus foram crucificados. Coponio, futuro procurador, aniquilou aos combatentes Galileus dentro do mesmo Templo, onde se tinha entrincheirado. No curso desse combate foi onde pereceu Zacarias, pai do futuro Batista, "entre o Templo e o Altar".
Finalmente, a cidade foi tomada, incendiada, e seus habitantes deportados e vendidos como escravos (Cf. Alphonse Séché: Histoire de nation juive). Sem dúvida, Maria, seus filhos e suas filhas escaparam a esta sorte mediante uma fuga organizada de antemão, já que voltaremos a encontrá-los mais tarde, quando retornaram à Galiléia. Não é menos evidente que, quando o imperador Juliano declararia mais tarde a São Cirilo de Alexandria, seu antigo condiscípulo, em uma carta citada por este último: "O homem que foi crucificado por Poncio Pilatos era sujeito do César, e vamos demonstrar...". (Cf. Cirilo de Alexandria: Contra Juliano), empregou o termo servus, que significava escravo, ou obnoxius, que significa o mesmo, porque o termo de sujeito, no sentido que lhe damos agora, traduziria-se por civis, cidadão. E, evidentemente, Jesus não era cidadão romano!


Por conseguinte, os habitantes de Séforis se converteram todos em "escravos de César", quer dizer, em servos e servas do Império romano, igual a todos os deportados. Este era o caso de todos quão fugitivos foram então considerados como escravos contumazes. Cirilo de Alexandria ressaltou a demonstração do imperador Juliano, a fim de não revelar essa condição. Porque, com efeito, ela implicava a crucificação inevitável para Jesus e todos os seus, e mais ainda quando à este caso se acrescentava o agravante de rebelião contra Roma. Mas naquela época terei que fazer recair a responsabilidade da morte de Jesus sobre os desgraçados judeus. Essa foi, provavelmente, uma das razões do segundo casamento de Maria, desta vez com o misterioso Zebedeu. (8)
E essa condição de escravo contumaz, de deportado convertido em servo do Império, é-nos confirmada pelo Comodiano de Gaza, o mais antigo poeta cristão, que viveu no século III, e que nos declara que Jesus era "inferior", que pertencia a uma classe "abjeta" (em latim abjectus significa rechaçado, e aplica-se a uma classe social, não a uma categoria moral), e precisa além disso: "espécie de escravo" (cf. Comodiano: Carmen apologeticum).
Está muito claro. Jesus estava, pois, classificado pela polícia romana dentro da categoria dos rebeldes contumazes, quer dizer, dos "escravos de César" em fuga, por ter escapado à deportação do ano 6.
Esta vida de guerrilheiros à margem da lei, tendo em conta as exigências da sobrevivência, implicava por parte dos zelotes, indevidamente, requisições ou inclusive pilhagens. Por isso Flavio Josefo, como bom fariseu aristocrata, julga-os com severidade:
"Quando Festo chegou à Judéia, encontrou-a destroçada por bandoleiros que incendiavam e saqueavam todos os povos. Aqueles aos quais se chamava sicários -eram bandoleiros- fizeram-se então muito numerosos. Serviam-se de adagas curtas, pouco mais ou menos da mesma longitude que os acinaces persas, mas estavam curvados, como os que os romanos chamam sicae, e com eles esses bandidos matavam muita gente, e a eles devem seu nome". (Flavio Josefo: Antigüidades judaicas, XX, VIII. 10.)
Logo vem essa misteriosa revolução que o exame das malhas da gruta de Khirbet-Qumran com a ajuda do "carbono 14" fez-nos descobrir providencialmente, e cujo relato - coisa curiosa- desapareceu de todas as cópias dos autores antigos. Essas malhas datam aproximadamente dos anos 32-34 de nossa era.
Abramos aqui um parêntese. Entre os numerosos documentos chamados "do mar Morto", existem uns cilindros de cobre cujo texto hebreu pôde ser decifrado em 1456, em Grã-Bretanha, pelo Wright Baker, na universidade de Manchester. São do século I de nossa era. Estão redigidos em um dialeto coloquial, o de Michna, parte mais antiga do Talmud, e não em hebreu neoclássico. Sabe-se (Dupont-Sommer em seus Manuscrits de mer Morte) que os zelotes estiveram constituídos pela fração política militante dos essênios, dos quais por ultimo se separaram. Para Cecil Roth, os homens de Qumran (lugar onde foram descobertos todas esses manuscritos) eram zelotes. Pois bem, esses cilindros nos falam de um tesouro considerável, composto de umas duzentas toneladas de ouro, prata e outras matérias preciosas, oculto em sessenta pontos diferentes de Terra Santa. Compreende-se que Nero, a quem apesar de tudo repugnava as execuções inúteis, preferisse fazer pagar aos chefes enormes resgates, e aos militantes ordinários os abandonasse às leis romanas e às terríveis práticas que estas implicavam. Aqui, uma vez mais Flavio Josefo demonstra ser um excelente historiador, pois como se vê, suas afirmações estão corroboradas pelos cilindros de cobre de Qumran. Mas voltemos para a luta dos zelotes.


Quatorze anos mais tarde, Judéia e Galiléia foram açoitadas pela fome: o contrário seria de sentir saudades. E no ano 47 de nossa era, nova revolução importante (houve outras e quanto a isso, já as veremos). E Tibério Alexandre, procurador da Judéia, cavaleiro romano, sobrinho de Filón, manda crucificar aos chefes do movimento, em Jerusalém. Como se chamam? Chamam-se Jacobo (quer dizer, Santiago...), e Simão, e também eles são "filhos de Judas da Gamala". Conforme nos diz Flavio Josefo, e irmãos de Jesus (Cf. Marcos, 6, 3). E a revolução do ano 47 é a continuação da de 34, que era a continuação da do ano 6 (revolução do Censo), que por sua vez era a continuação das precedentes.
Observar-se-á que Judas da Gamala, ao proclamar uma espécie de república judia, no ano 6 de nossa era, cunhou umas moedas que levavam em enxerto esta qualificação. Deste episódio permanece um eco discreto no seio dos Evangelhos:
"Então retiraram-se os fariseus e celebraram conselho para ver o modo de surpreendê-lo em alguma declaração. Enviando seus discípulos com herodianos para dizer-lhe: "Mestre, sabemos que és sincero e que com verdade ensinas o caminho de Deus, e não se te dá de ninguém, e que não fazes acepção de pessoas. Dize-nos, pois, teu parecer: É lícito pagar tributo ao Cesar, ou não?". Jesus, conhecendo sua malícia, disse: "Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo". Eles lhe apresentaram um denário. E lhes perguntou: "De quem é esta imagem e esta inscrição?". Responderam-lhe: "De César". Disse-lhes então: "Pois dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"..." (Mateus, 22, 15-21).
Havia, pois, uma moeda que, aos olhos de Jesus, era "ortodoxa", e outra que não o era. (9) Desta filiação davídica Roma sempre desconfiará, muito ou pouco. É testemunho disso a seguinte passagem de Eusébio da Cesárea: "Ficavam ainda, da raça do Salvador, os netos de Judas, de quem se dizia que era seu irmão carnal. Denunciou-lhes também como membros da raça de David e o evocatus os transferiu ante o Domiciano César..." (Eusebio da Cesárea, História eclesiástica, III, XX, I).
Recordemos que Judas era o verdadeiro nome de taoma, o irmão gêmeo de Jesus (10) como contam Taciano e São Efrén.
Mas é muito difícil desentranhar as verdadeiras personalidades de todo este mundo confuso, ou que se fez intencionalmente confuso. Julgue-se: "Depois da Ascensão de Jesus, Judas, chamado também Tomás, enviou ao Abgar, rei de Edesa, ao apóstolo Tadeu, um dos setenta discípulos ...". (Eusebio da Cesárea, História eclesiástica, XXX, XX, I.) Como se vê, Eusebio confirma ao Taciano e a São Efrén no que diz respeito ao verdadeiro nome do gêmeo de Jesus.


Assim, quando lemos um episódio evangélico no que se fala de um tal Judas, é possível que se trate de Tomás. Porque havia dois personagens com tal nome entre os discípulos de Jesus.
Do mesmo modo, quando nos encontramos com o nome do Alfeu, pai de Santiago o Menor, não prestamos atenção a maioria das vezes ao fato de que se tratava de um apelido, e de um apelido em língua grega. Porque essa palavra designa a um homem afetado de psoriasis (alphos: herpes branco). Seu verdadeiro nome possivelmente era Simão o Leproso, o da Betânia (Mateus, 26, 6; Marcos, 14, 3).
E do mesmo modo, quando nos encontramos com um tal Simão o Cananeu (Marcos, 3, 18; Lucas, 6, 15; Atos, 1, 13), não estabelecemos relação alguma com Simão, o Zelote, aliás Simão o Sicário. Pois bem, em hebreu um cananeu é o que é do Caná, e Caná, em hebreu, significa zelo, fanatismo, ciúmes. Caná, cidade da Galiléia onde têm lugar as famosas bodas, é, portanto, o centro de reunião dos zelotes, os sicários, o centro do integrismo judaico (do grego zelotes: ciumento, fanático). E Simão o Cananeu e Simão o Zelote são um só e único personagem. E, o que é mais, esse personagem é um apóstolo (Atos, 1, 12-14) e um "irmão do Senhor" (Marcos, 6, 3).
Em Caná se encontravam em família, como o prova o texto de João: "Ao terceiro dia houve umas bodas em Caná da Galiléia, e estava ali a mãe de Jesus. Foi convidado também Jesus com seus discípulos à bodas..." (João, 2, 1-2.)
As relações entre galileus e zelotes são evidentes, e inclusive indiscutíveis. Flavio Josefo nos diz deles: "Logo os galileus, ao cessar a guerra civil, consagraram-se aos preparativos contra os romanos". (Cf. Flavio Josefo, Guerra dos judeus, manuscrito eslavo, II, XI.)
Porque, conforme nos diz mais tarde: "Os galileus são guerreiros ..." (Op. cit., III, tt.)
Por outro lado, em nossa época, o cardeal Jean Daniélou nos diz em sua obra Théologie du judéo-christianisme, que: "...Aqui os galileus parecem ser outro nome dos zelotes..." (Op. cit., P. 84), e "... Galiléia parece ter sido um dos principais focos do zelotismo." (Op. Cit., P. 84.)
O historiador protestante Oscar Cullmann observa deste modo em seu livro Dieu et César que "aos galileus mencionados em Lucas, 13, 1, terá que identificá-los como zelotes ...".


Agora bem, antes de todas essas autoridades, o imperador Juliano, no século IV, utilizava o termo de galileu para designar aos cristãos. Portanto, zelotes, galileus, cristãos, foram os termos que designaram sucessivamente aos primeiros partidários de Jesus, antes de que a heresia paulina tivesse estendido sua confusão sobre os gentis e sobre os judeus da Diáspora.
Nem sequer o verdadeiro nome de Batista deixou que ser matéria de investigação: "O domínio de Arquelao foi confiado por César a um de seus oficiais chamado Coponio, com poder de vida e morte sobre o que quisesse. E houve em seus tempos um homem da Galiléia que reprovava aos judeus descendentes de Abraham o que trabalhassem agora para os romanos, que lhes pagassem tributo, e que tivessem assim uns donos mortais, por haver-se privado do Dono imortal. O nome deste homem era Judas, e tinha decidido viver afastado, sem parecer-se com ninguém mais..." (Flavio Josefo, Guerra dos judeus. II, II). Esse Judas era, evidentemente, Judas o Gaulanita.
"E naqueles tempos apareceu João, o Batista, pregando pelo deserto da Judéia. Vestia uma pele de camelo, com um cinturão de couro ao redor dos rins, e se alimentava de gafanhoto e também de mel silvestre ..." (Mateus, 3, 1 e 4.)
Não se apresenta aqui, enganosamente, ao mesmo personagem com outro homem? A verdade é que alguém se perde, e essa é a finalidade perseguida.


O outro Santiago, chamado o Maior, tem por pai a um tal Zebedeu. Agora bem, esse nome é totalmente desconhecido na tradição judia do Antigo Testamento. Encontramos Zabdi (que significa dotado), Zabud (filho de Natan, I Reis, 4, 5), Zabulon (que significa morada), Zebul (Juízes, 9, 28), Zebach (Juízes, 5), Zeeb (Juízes, 7, 25), com o significado de "mão direita", quer dizer, o membro viril paterno, e isso é tudo.
Em sua versão francesa da Bíblia católica, Lemaistre de Sacy traduz Zebedeu por dom, dotada (em feminino), mas o Dictionnaire hébreu-français de Sander (Paris, 1859), destinado aos rabinos, não conhece nenhum Zebedeu, e em hebreu traduz dom por três letras: zain-beth-daleth, e isso se pronuncia Zabad. Depois vem Zabdiel, que significa "Dom de Deus". Assim, há um mistério sobre esse Zebedeu, pai de Santiago, o Maior (ou seja, de Jacobo o Primogênito), quem também leva um nome que não é hebreu, como Alfeu, pai de Santiago, o Menor (Jacobo, o Benjamim).
Toda esta embrulhada selva de nomes que às vezes se substituem por apelidos, apelidos que trocam ao desejo dos copistas, ou inclusive nomes que não têm nenhuma realidade em Israel, tudo isso não tem outro objetivo que desviar o leitor que sinta, embora não seja, senão um mínimo de curiosidade, e que esteja desejoso de verificar dados. Porque não se trata de compreender mas sim de acreditar.
E aqui o que importa, já seja apagando o estado da Galiléia e da Judéia sessenta anos antes de nossa era e sessenta depois (quer dizer, cento e vinte anos de guerras, de rebeliões desumanas e de repressões sangrentas, agravadas ainda pelo horror de uma guerra civil permanente entre os terroristas integristas, zelotes-sicários, e os judeus colaboradores, fariseus-saduceus), ou embrulhando as pistas nominais e as genealogias, é impedir ao leitor perspicaz que desemboque onde nós desembocamos: no fato de que Jesus é o filho legítimo de Judas da Gamala e de Maria, sua esposa, o neto de Exequias, pai de Judas da Gamala, e como tal, descendente de David, e rei legítimo de Israel.
Desde onde esta frase dos Atos dos Apóstolos: "Reunidos lhe perguntavam: "Senhor, é agora quando vais restabelecer o reino de Israel? Ele lhes disse: 'Não é para vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou em virtude de seu poder...'." (Atos, 1, 6-7).
O texto grego de quão feitos chegou até nós é do século IV. Inicialmente estava "o Pai", ou simplesmente "meu pai"? Porque neste ultimo caso teríamos uma alusão evidente ao Judas da Gamala. Não esqueçamos que ao Jesus lhe chama "filho do carpinteiro" (Mateus, 13, 55), mas em hebreu, heresh significa ao mesmo tempo carpinteiro e mago. Se o termo que terá que ter em conta é este último, teríamos uma alusão a um aspecto particular do pai de Jesus, e não seria nada desatinado supor que tinha deixado, de antemão, umas instruções, das quais se afirmou que eram proféticas, que davam o desenvolvimento cronológico das guerras zelotes, quer dizer, uma espécie de plano de campanha que abrangia um período de tempo bastante longo.


Pilatos, que representava ao César e ao Império Romano, não se equivocou ao fazer transcrever em três línguas (judia, grega e latina) a identidade oficial de Jesus: "Jesus de Nazaréh, rei dos judeus".
Por outra parte, observa-se que o vinho, na religião de Zoroastro, fonte primitiva da de Mitra, e especialmente nesta última, simboliza a realeza. Pois bem, o que é o que declara Jesus? O seguinte: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor..." (João, 15, 1)
E em Mateus (17, 24-26), pretende-se "filho de rei". De modo que, ou Jesus copia seu simbolismo da religião de Mitra (religião que para os judeus piedosos era maldita), ou um escriba que estava à corrente desta imaginou tal passagem, no curso de sua redação no século IV, e as palavras atribuídas ao Jesus são inventadas. Assim, em quem confiar?
NOTAS COMPLEMENTARES
Sobre a analogia dos termos galileus e zelotes, possuímos outro exemplo, extraído dos próprios Evangelhos. Lucas (13, 1-4) conta-nos que na ocasião da queda da torre de Siloé, Pilatos mesclou o sangue de dezoito galileus com a de seus sacrifícios.
Esta torre, próxima à piscina de Siloé, formava parte do recinto sudoeste da cidade de Jerusalém, frente ao monte do escândalo. Ao vir de Qumran, o centro zelote onde foram descobertos os manuscritos chamados do mar Morto, desembocava-se na porta da Fonte, e ao penetrar na cidade, na torre. Se esta se derrubou, matando assim a dezoito galileus, e se Pilatos foi o responsável por isso, é que se entrincheiraram ali, porque não se derrubou sozinha.


Esses homens eram, portanto, os zelotes, e como os únicos sacrifícios admitidos pela Lei judia eram exclusivamente os oferecidos no Templo de Jerusalém, a gente pode perguntar-se de que natureza eram esses sacrifícios que os zelotes ofereciam no seio de uma torre fortificada, e que suscitaram uma intervenção armada da potência ocupante.
2 - Os filhos de Aarão
Acaso não está seu irmão Aarão, o levita?... Aarão, seu irmão, será seu profeta...
Êxodo, 4, 14, e 7, 1
Esta simples frase nos fala da existência de um sacerdócio independente e individual, ao mesmo tempo adivinhatório e mágico, muito antes de que Moisés tivesse instaurado um pontificado no seio de Israel, ainda inexistente como nação organizada. O leitor se convencerá disso se reler a história de Mica no Livro dos Juízes, nos capítulos 17 a 19, ambos inclusive, porque: "Essa Mica tinha uma capela para Deus; fez, portanto, um ephod e um teraphim, isto é vestidura sacerdotal e ídolos: e consagrou a um de seus filhos, que lhe serve de sacerdote.(11) Porque naquele tempo não havia rei em Israel, e cada um fazia o que lhe parecia bom". (Juízes, 17, 5-6).
Consagrados por Moisés, Aarão e seus filhos converteram-se no tronco da filiação sacerdotal e nos antepassados carnais de todos os cohanim (em hebreu: sacerdotes, pontíficees).
A genealogia os mostra como primos dos filhos de David:
Abraham se casa com Sara
Isaac se casa com Rebeca
Jacob se casa com Lea
Judá se casa com Bath-Schua Leví se casa com X ...
David se casa com Bath-Scheba (12) Aarão se casa com Elischeba
Exequias se casa com X ...
Judá se casa com Myrhiam Zacarias se casa com Elischeba
Jesus-bar-Judá Iochanan-bar-Zacariah
Sabemos que a corrente integrista dos zelotes estava invariavelmente dirigida:
a) Por um descendente de David, em posse do poder temporário.
b) Por um descendente de Aarão, em posse do poder espiritual.
E assim, conforme nos diz Flavio Josefo, com o Judas da Gamala houve um fariseu chamado Saddoc. Com o Simão-bar-Kokba esteve Rabbi Akiba. E com o Jesus-bar-Juda esteve Iochanan-bar-Zacariah, aliás João, o Batista. Por isso o primeiro se submeteu ao batismo, administrado pelo segundo. Esta subordinação de Jesus ao João aparece, além disso, sublinhada pela frase impaciente de Batista, que envia à seus discípulos a repreender ao Jesus, quem, depois da detenção de João, retirou-se à Galiléia (Mateus, 4, 12), logo à Tiro e ao Sidón, em vez de passar à ação direta: "É você o que tem que vir, ou (afinal) teremos que esperar a outro...? (Mateus, 11, 1 a 4).
Essas diversas constatações vão permitir-nos agora indagar quem podia ser esse misterioso Saddoc, nome que em hebreu significa "o justo", e que portanto devia ser necessariamente cohen (sacerdote), e descendente de Aarão. Para isso, estudaremos atentamente a vida do pai de João, o Batista.


Trata-se de Zacarias, em hebreu Sacaria. O proto-evangelho de Santiago nos fala dele, e associa sua morte, por ordem de Herodes, o Grande, à famosa Matança dos Inocentes, sobre a que já fizemos luz na obra precedente. (13) Vejamos o que diz disso esse apócrifo célebre: "Herodes procurava João, e enviou a seus servidores junto ao Zacarias, dizendo: "Onde escondeste a seu filho?...". Ele lhes respondeu: "Estou ao serviço de Deus, e ligado ao Templo do Senhor; não sei onde se encontra meu filho". Os servidores se afastaram e contaram tudo isto ao Herodes. E este, irritado, disse-lhes: "Seu filho deve reinar sobre Israel". E lhes enviou de novo junto ao Zacarias, dizendo: "Diga a verdade! Onde está seu filho?...". Os servidores partiram e contaram tudo isto ao Zacarias. E Zacarias disse: "Eu serei mártir de Deus se derramas meu sangue. Porque o Todo-poderoso receberá meu espírito, porque é um sangue inocente a que você dispõe a derramar à porta do Templo do Senhor...". E, ao amanhecer, deram morte ao Zacarias, e os filhos de Israel não sabiam que lhe tinha dado morte. Na hora da saudação os sacerdotes foram ao Templo. E Zacarias não veio, como era costume, ante eles para benzê-los. Os sacerdotes se detiveram, esperaram ao Zacarias para saudá-lo na oração e benzer ao Altíssimo. Como demorava, todos foram presa do medo; um deles, mais valoroso, entrou no Templo e viu, perto do altar, sangue coagulado. Uma voz dizia: "deram morte ao Zacarias, e seu sangue não se apagará até que chegue seu vingador". Ao ouvir estas palavras sentiu medo, e saiu para levar a notícia aos outros sacerdotes".
Se tivéssemos alguma dúvida, aqui teríamos confirmação de sobra que toda esta história refere-se na realidade, não a pseudo Matança dos Inocentes de Belém da Judéia, mas à agitação zelote. Porque nos diz: "Seu filho deve reinar..." Portanto, Herodes está ciente da existência desse duplo poder no partido zelote, porque o filho de um cohen como Zacarias não pode acessar ao trono de Israel, por ser filho de Aarão, e não filho de David. Mas Herodes sabe que o pretendente ao trono temporário estará respaldado pelo pretendente ao pontificado, e que os dois co-príncipes serão ipso ipso os adversários da dinastia Iduméia dos Herodes.
Esse texto do Proto-evangelho de Santiago pode comparar-se com o de Lucas: "Zacarias, seu pai, encheu-se do Espírito Santo e profetizou dizendo: "Bendito o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu a seu povo, e suscitou a nosso favor um poder salvador na casa de David, seu servo, como tinha prometido pela boca de seu santos profetas desde antigamente, um salvador que nos libera de nossos inimigos e do poder de todos os que nos aborrecem..." (Lucas, 1, 67-71).
Pois bem, trata-se de seu próprio filho, o futuro Batista, e não de Jesus. Além disso, El Salvador assim anunciado é nada menos que um messias guerreiro, e não um cordeiro... Houve rivalidades entre as duas famílias? Não seria impossível, ao menos em um período dado. No século IV, os copistas de Eusebio fizeram desaparecer tudo isso.
Por outro lado, nesse relato se fala de deixar a mancha de sangue de Zacarias sobre as lajes do Santo Templo, até que chegue "seu vingador"... Aqui do que se trata é, indubitavelmente, de represálias zelotes, em virtude da lei mosaica de talião, porque o de um vingador não tem nada de evangélico. (14)


Esse vingador será seu filho Iochanan, o Batista, e para convencer-se disso, o leitor não terá mais que reler uma certa passagem de Flavio Josefo que trata, justamente, do chamado Batista: "A seu redor se reuniram gente, porque se sentiam muito exaltados para lhe ouvir falar. Herodes (Antipas) temia que semelhante faculdade de persuasão suscitasse uma rebelião, já que as multidões pareciam dispostas a seguir em todo os conselhos desse homem..." (Flavio Josefo: Antigüidades judaicas, XVIII, v, 118).
Herodes, o Grande, tinha mandado matar Zacarias por prudência. Seu filho Herodes Antipas fará, pois, matar ao Batista pelo mesmo motivo. Veja-se a este respeito o capítulo consagrado ao tema na obra precedente. (15)
E nova confirmação de tudo o que está relacionado com as atividades zelotes, imediatamente depois das passagens do Proto-evangelho de Santiago citados antes. O texto termina assim: "Pois bem, eu, Santiago, que tenho escrito esta história, como se produziram distúrbios em Jerusalém à morte de Herodes, retirei-me ao deserto, até que a agitação se acalmou em Jerusalém." (Cf. Protoevangelio de Santiago, 25).
Herodes, o Grande, morreu no ano 6 antes de nossa era.
Esses distúrbios foram, em realidade, o resultado da primeira revolta dirigida pelo Judas da Gamala, pai de Jesus, contra Arquelao, filho de Herodes o Grande e seu sucessor designado; iniciaram-se no ano 5 antes de nossa era. E essa foi a verdadeira "fuga ao Egito" de Maria e de seus filhos menores. Foram enviados lá, em lugar seguro, longe dos combates que liberava o chefe da família, Judas da Galiléia. Porque naquela época, Santiago era ainda um menino, e não um homem feito, como tende a fazer acreditar, ao silenciar a presença de sua mãe e de seus irmãos e irmãs. Ele, ou os escribas anônimos do século IV...
Ao redigir seu Apocalipse, Jesus recordará essa fuga: "E estando grávida, gritava com as dores do parto e as ânsias de parir (...) A mulher fugiu ao deserto, aonde tinha um lugar preparado por Deus, para que ali a alimentassem durante mil duzentos e sessenta dias". (Apocalipse, 12, 2 e 6). O que equivale a quarenta e dois meses.
Essa permanência no Egito foi, portanto, de uns três anos e meio. O dragão vermelho que persegue à mulher simboliza Roma, porque os pretorianos da guarda imperial tinham a cota de armas vermelhas e os centuriões ordinários um manto da mesma cor. As sete cabeças do dragão são as sete colinas da capital do Império romano, e os dez chifres são os dez reis vassalos. E, efetivamente, foram as legiões de Publio Quintilio Varo, legado de Roma em Síria do ano 6 ao ano 4 de nossa era, quem reprimiu sem piedade esta revolução. Foram crucificados mais de dois mil rebeldes ao redor de Jerusalém. Portanto, foi no curso desta repressão quando foi assassinado Zacarias, tio de Jesus, marido de Isabel, prima de Maria. Morreu no 8° dia do mês de Thot, segundo um fólio do manuscrito n° 1.305 da Biblioteca Nacional, redigido em copto sahídico. Isto nos dá em 5 de agosto do ano 4 antes de nossa era, quer dizer, o segundo ano da revolução, o de seu afastamento final por Varo, e este abandonou a seguir Síria, com direção à Germânia.
Como vimos, o combate final desenvolveu-se no Templo de Jerusalém, transformado em fortaleça pelos insurretos, e Jesus fez alusão à morte de Zacarias, se dermos crédito ao texto de Mateus: "... Para que caia sobre vós todo o sangue inocente derramado sobre a terra, do sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, (16) a quem mataram entre o Templo e o altar... Na verdade lhes digo que tudo isto virá sobre esta geração...". (Cf. Mateus, 23, 35-36). Como se vê pelo texto, uma vez mais nos encontramos em presença de um Jesus zelote, rancoroso, que em modo algum praticava o perdão das ofensas, pelo contrário, a lei de talião, coisa que politicamente constituía seu direito e seu dever. Mas é muito provável que esse texto fora hábil pelos escribas do século IV, que eram muito anti-semitas, e, além disso, estavam obrigados a dar adulação aos romanos. Porque Zacarias não foi assassinado pelos judeus, como lhe faz dizer ao Jesus no evangelho de Mateus, mas sim pelos legionários de Varo ou pelos mercenários gregos de Arquelao, filho e sucessor de Herodes, o Grande.
Sobre o fato de que o Zacarias assassinado "entre o Templo e o altar" fora o pai de Batista, e não o profeta "filho de Baraquías, filho de Addo", que viveu sob o Darío, quer dizer, no século V antes de nossa era, basta-nos como prova o testemunho de Orígenes, quem em seu tratado XXVI, capítulo XXIII, sobre "São Mateus", diz-nos que o profeta foi lapidado (Cf. II Paralipomenos, XXIV, 20 e seguintes), enquanto que o pai de Batista foi assassinado pelas costas.


Em suas Antigüidades judaicas (XVII, IX, manuscrito grego), Flavio Josefo nos diz que os rebeldes, tomando como pretexto que Arquelao não mandava castigar aos oficiais de Herodes, o Grande, que queimaram vivos a quão jovens arrancaram do frontispício do Templo a águia de ouro que Herodes ordenara inserir, entrincheiraram-se no Templo de Jerusalém, que, por sua colossal arquitetura, constituía uma verdadeira fortaleza.
Uma tropa de soldados mercenários, mandada por um quiliarca, foi enviada ao Templo para apaziguar aos insurretos, mas estes mataram a todos os soldados. Então foi quando se iniciou a repressão, no curso da qual se combateu inclusive dentro do santo lugar, e resultou morto Zacarias "entre o Templo e o altar", coisa que estritamente não quer dizer nada, tão somente significa que sucumbiu entre o altar e o santo, e por conseguinte, no próprio santuário. Segundo Nicolás de Damasco, o número de insurretos superava os dez mil. Quanto aos mortos, crucificados ou cansados em combate (como no caso de Zacarias), estes se elevaram a mais de três mil. E aqui se expõe um problema histórico, uma tentativa de recuperação da verdade.
Agora é seguro que esse tal Zacarias desempenha, ao lado de Judas, o Gaulanita, o papel de possuidor do poder espiritual, já que é cohen (sacerdote), e portanto filho de Aarão, quão mesmo o chamado Judas tem a autoridade temporária como filho de David.
Não é menos certo que Iochanan, o Batista, seu filho, desempenhou o mesmo papel ao lado de Jesus, filho de Judas o Gaulanita. Por conseguinte, seu companheiro de equipe (de Jesus) não foi Judas, seu irmão gêmeo, aliás Tomás (tôama: gêmeo em hebreu), a não ser o chamado João. E isto varre a hipótese que, como último recurso, poderiam sustentar alguns de nossos leitores, que, depois da revelação da existência de tal irmão gêmeo, imaginariam um Jesus todo doçura (e além deificado) e um Jesus, provavelmente Barrabás, todo violência, manchado de numerosas mortes, pilhagens e saqueador desumano de pedágios e prostitutas. Porque Jesus e João foram, como se viu, chefes tão violentos tanto um como outro, do mesmo modo como fossem, irmanados pela mesma paixão, Simão-bar-Kokba e Rabbi Akiba, e muito antes que eles Judas da Gamala e Rabbi Saddoc. E esta nova constatação nos abre horizontes inesperados. Qual era, então, o verdadeiro nome de Zacarias, ou, melhor ainda, qual era o verdadeiro nome de Rabbi Saddoc? Porque, evidentemente, trata-se do mesmo personagem... Zacarias significa em hebreu "memória de Deus". É uma alusão ao fato de que a mancha de sangue não deverá apagar-se até que chegue "seu vingador". Em realidade, seria mais adequado dizer Sakariel, nome de um dos sete arcanjos às ordens da justiça divina.
Saddoc significa em hebreu "o justo", termo evocado pela frase de Mateus (23, 35-36), é também cohen, e portanto filho de Aarão, de modo que seu título oficial é o de Rabbi Saddoc. E isso se lê: "Mestre Justo". Seria ele o "Mestre de Justiça" dos manuscritos do mar Morto? Não. Porque o que citam os textos de Qumran é submetido ao suplício pelo "sacerdote ímpio", Aristóbulo II, rei e supremo sacerdote de Israel por volta dos anos 65-63 antes de nossa era. Trata-se provavelmente de Onías, e, segundo a lenda, também ele apareceu a seus discípulos depois de morto. Mas como o "Mestre de Justiça" recebe também o qualificativo de "Messias de Aarão e de Israel" (enquanto que o liberador temporário espera-se simplesmente sob o nome de Messias), pensamos que aqui se trata de um título que designa uma função, e não de um nome, que qualificasse uma individualidade. Flavio Josefo nos conta que, com efeito, o nome de "Legislador" era, depois do de Deus, objeto de máxima veneração. Quem blasfemasse sobre ele ou o injuriasse, no seio da comunidade dos essênios seria réu de morte". (Cf. Guerra dos judeus, II, VIII, 145-152).


Por conseguinte, no seio dos zelotes, que como se sabe procediam da corrente essênia primitiva, da qual constituíam a ala guerreira, o nome do possuidor do poder espiritual não se pronunciava; utilizavam-se circunlóquios, análogos à regra pitagórica: autos épha, ou seja, "Ele há dito..." Assim, é provável que esses nomes de Zacarias e de Saddoc fossem subterfúgios que nos velem o verdadeiro nome do companheiro de guerra de Judas da Gamala. Mas é bem certo que esse personagem foi o pai de Batista e o marido de Isabel, prima de Maria.
Fica ainda um último ponto que precisamos dizer de Jesus que é "sacerdote segundo a ordem de Melquisedec" (Salmos, 110, 4; Hebreus, 10, 6; 20; 7, 17), é reconhecer implicitamente que possuía um sacerdócio comum a toda a descendência de Abraham, que foi o primeiro investido com tal sacerdócio (Gênese, 14, 18), que é quão mesmo não dizer nada. Porque em virtude desta ordenação hereditária um israelita podia efetuar, no seio de sua família, a cerimônia da noite sábado (sabbat), com a bênção de Kidduch, efetuada sobre a taça de vinho, e a do ha-Motzi, pronunciada sobre dois pães. E isso é o que permitiu ao David comer os pães já consagrados ao Yavé pelo pontífice Aquimelec (cf. I Samuel, 21, 1 a 6).
Observar-se-á que, no segundo livro de Enoc, diz-se que esse Melquisedec foi o filho de Sophonim, esposa de Nir e irmã de Noé. Foi concebido em sua velhice sem que ela houvesse "dormido com seu marido", e o iluminou de forma milagrosa, porque estava destinado a ser "chefe dos sacerdotes de outra raça". (41, 3-4) Agora bem, este apócrifo é judeu, e foi descoberto também em Qumran. Portanto, dele tirou a lenda de Jesus ao que se refere a sua concepção e nascimento milagrosos.
Por outro lado, em função da filiação judaica dos altos graus da franco-maçonaria tradicional, é pelo que se pode celebrar O Jantar melquisedeciano nos capítulos do 18° grau, onde se congregam os "Cavaleiros da Rosacruz". Porque o fundador imaginário dos Rosacruzes, Rosenkreutz, não é outra coisa que um epônimo, deformação do hebreu rocem Koroz, que significa "príncipe arauto"...(17) Jesus, portanto, não detinha a não ser uma espécie de sacerdócio laico, se esses dois termos não se acoplarem.
3 - Os filhos de David
Todo homem é uma guerra civil ...
JEAN LARTÉGUY, Os Libertadores
Actus Apostolorum... Praxeis Apostolón ...
Quem quer que esteja, embora um pouco, versado em latim ou em grego, traduzirá corretamente estes títulos por Atos dos Apóstolos. Mas esse plural, ao ler a obra, resultará bastante decepcionante.
Com efeito, salvo a segunda parte dos Atos, que trata exclusivamente da ação de Saulo, aliás Paulo, dos onze apóstolos restantes só se trata na primeira parte; os quinze primeiros capítulos são tipicamente petrinos, e só, e de forma muito breve, no primeiro se fala deles. No curso do texto encontraremos simplesmente Simão, chamado o Zelote, quer dizer, Pedro (e já demonstramos na obra anterior que se trata do mesmo personagem, [18]) ao Santiago, o Maior (Jacobo em hebreu) e Santiago, o Menor. Porque o Felipe chamado em 7,5 e em 21,8, não é outro que o diácono, eleito com outros seis em 6,5. Não é portanto o apóstolo, chamado entretanto, em 1, 13, e que desaparecera não se sabe onde nem como. Quão mesmo André, Tomás, Bartolomeu e Judas, sobre os quais não subsistiu no corpus neotestamentário nada que seja historicamente válido. Por isso, sobre todos esses homens que não foram nunca outra coisa que irmãos e parentes de Jesus, e agentes da resistência judia nacional, (19) um não pode a não ser somar-se à conclusão de monsenhor Dúchense, membro do Instituto, que em sua obra Les origines du culte chrétien nos diz que: "Os apóstolos missionários, com a única exceção de São João, tinham desaparecido sem deixar nenhuma lembrança concreta. A lenda que logo se apoderou deles, parece havê-lo feito com tanta mais liberdade, quanto que não chocavam a não ser com tradições muito fugazes..." (Cf. Dúchense, Les origines du culte chrétien, Paris 1903, pp. 14 e 15).
Terá que acreditar que este bispo letrado não era um historiador muito curioso, já que se fosse tão tenaz como nós, terminaria por descobrir a verdade. A menos que, no interesse do corpo ao qual pertencia, preferisse silenciar seus próprios descobrimentos.
Melhor ainda, Clemente de Alexandria, discípulo de Pantenio, que era por sua vez um discípulo imediato do apóstolo Marcos (portanto, não há mais que dois elos entre Clemente e Marcos), diz-nos o seguinte, que confirma a opinião de monsenhor Dúchense, mas que nos põe no caminho de futuros descobrimentos sensacionais: "Escolhidos, não todos confessaram ao Senhor pela palavra, e não todos morreram em seu nome. Entre eles se contam Mateus, Felipe, Tomás, e muitos outros... (Cf. Clemente de Alexandria, Stromates, IV, IX).
Terá que entender que este autor, um dos grandes escritores eclesiásticos dos primeiros séculos (foi o Mestre de Orígenes), sugere com meias palavras que esses homens, tanto apóstolos como discípulos, desinteressaram-se rapidamente da missão que lhes confiara Jesus? Porque nos Atos dos Apóstolos não se conta nada deles, e é verdadeiramente curioso.
Possivelmente possuamos a explicação desta prudente retirada por sua parte em uma passagem muito curiosa do Evangelho segundo Mateus: "Os onze discípulos foram à Galiléia, ao monte que Jesus lhes indicara, e, vendo-lhe, prostraram-se, embora alguns vacilaram... Aproximando-se, Jesus lhes disse...". (Mateus, 28, 16-17).


Assim, ao vê-lo enfim a plena luz, ele ou seu sósia, o irmão gêmeo (20), alguns deles, os menos ingênuos, acreditam que pode tratar-se de um engano. Não é exatamente Jesus, ao menos não o que foi crucificado em Jerusalém. Há diferenças, a maquiagem das pseudo-chagas não é perfeita, ou se diluiu um pouco, e alguns estigmas da Paixão, do rosto ou à frente, estão ausentes ou são diferentes; e possivelmente o irmão gêmeo não é um sósia rigorosamente exato. E daí essa dúvida discreta, essa reticência cortês mas significativa, que condicionará logo sua retirada da lenda que já está em curso de elaboração. Agora se compreende o motivo do desaparecimento do primeiro Evangelho de Mateus, simples recopilação em aramaico de sentenças, máximas, frases lapidárias, pronunciadas por Jesus enquanto ainda estava vivo. O desaparecimento desse texto se produziu já na época em que o grande Orígenes recolhia todo o hábeas judeu-cristão existente. Naquela época deplora e reconhece não ter à mão a não ser o segundo Mateus, o nosso, o pseudo-Mateus. E mais ainda, há um fato muito estranho: sobre a pretendida chegada de Simão-Pedro à Roma e sobre sua crucificação de cabeça para baixo, a seu pedido, (21) as Epístolas de Paulo, de João, de Santiago, e os Atos dos Apóstolos, guardam um mutismo total. E no século VI, Eusebio da Cesaréia poderá nos dizer, cheio de dúvidas: "Os assuntos dos judeus estavam nesse ponto. Quanto aos Santos apóstolos e discípulos de nosso Salvador, estavam dispersos por toda a terra habitada. Tomás, segundo conta a tradição, obteve na partilha o país dos Partos, André a Escitia, João a Ásia, onde viveu. Morreu em Éfeso. Pedro parece ter pregado em Ponto aos judeus da Diáspora, e na Galacia, Bitinia, Capadocia e Ásia". (Cf. Eusebio da Cesaréia, História eclesiástica, III, I, 1).
Rufino, em sua tradução latina da obra de Eusebio da Cesaréia, acrescenta o seguinte depois de Tomás: "Mateus obteve Etiópia, e Bartolomeu a Índia anterior". Pouco antes, Eusebio nos assinalou, possivelmente involuntariamente, a ambigüidade da tradição petrina: "Conta-se que sob seu reinado (de Nero César), ao Paulo cortaram a cabeça na mesma Roma, e que aparentemente Pedro foi crucificado ali. E isto confirma o fato de que, até agora, dá-se os nomes de Pedro e Paulo aos cemitérios de tal cidade". (Cf. Eusebio da Cesaréia, História eclesiástica, II, XXV, 5).
Suponhamos que um cataclismo destruíra nossas bibliotecas. Dentro de dois milênios aproximadamente se deduziria que as ruínas do Arco do Triunfo albergam a tumba de um general chamado De Gaulle, apoiando-se com todo argumento em:
a) a presença de uma tumba e de um esqueleto, ou de suas cinzas;
b) o culto rendido em 11 de novembro de cada ano, durante lustros, ao homem ali inumado;
c) o fato de que semelhante monumento não podia em modo algum ter sido ereto sobre a tumba de um soldado de segunda classe, e para o cúmulo, completamente desconhecido de identidade e de comportamento guerreiro;
d) o nome mesmo, dado ao lugar sobre a que tinha sido ereto o Arco.
E isso é o que aconteceu, pouco a pouco, com o nome dado a esse cemitério em Roma, quatro séculos depois da morte dos interessados.
De fato, os "Santos apóstolos do Senhor" não escreveram jamais nada de todo o legendário que nos apresenta e administra há vinte séculos bem cumpridos. Se duvidássemos disso nos bastaria relendo o Dictionaire de théologie catholique: "Clemente de Alexandria conheceu também algumas tradições orais procedentes, não dos próprios apóstolos, mas sim do meio apostólico..." Em outras passagens recorda esse caráter oral: "Os presbíteros não escreviam". (Cf. Clemente de Alexandria, Ecogloe propheticae, XXVII). "Esta doutrina chegou até nós verbalmente (não escrita) dos apóstolos..." (Cf. Clemente de Alexandria, Stromates, VI, VII, 61). Por essas declarações sem ambigüidade se vê o que terá que acreditar sobre a autenticidade dos pseudo-Evangelhos redigidos pelos mesmos apóstolos.


4 - Ezequias-har-Gamala
Os mortos das batalhas perdidas são as razões para esperar que tenha vencidos ...
MARCEL PAGNOL: La Fille du puisatier
No ano 46 antes de nossa era, Herodes, segundo filho de Antipater, é o governador da Galiléia por ordem de César. Tem então uns vinte e sete anos. Depois de inumeráveis perseguições e combates, seus mercenários idumeus e sírios conseguem capturar Ezequias, que causa estragos em Síria, então província romana, desde seus inexpugnáveis redutos da Alta Galiléia; Herodes o manda crucificar. (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XVII, X). Este episódio situa-se, provavelmente, no ano 43 antes de nossa era.
Em seguida, Herodes é chamado a comparecer ante Hircano II, pontífice e rei de Israel, da dinastia asmonéia (os macabeus), quem lhe reprova verbalmente a morte de Ezequías. Herodes consegue fazer-se absolver, tanto graças a uma boa defesa, como à sombra enfurecida de Roma, que Hircano não se atreve a confrontar apesar de tudo (cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XIV, XVII); com efeito, o legado imperial intervém em seguida em seu favor: "Que fique isento Herodes de todo processo, tanto se tiver incorrido em falta como se não". Esta é a imperativa ordem que Sexto César, governador de Síria e parente de Julio César, dirigiu nesta ocasião ao Hircano II. (Cf. Flavio Josefo, Guerra dos judeus, manuscrito eslavo, I, IV).
Tanto se tiver incorrido em falta como se não... Sexto César reconhecia aqui implicitamente o caráter legítimo do combate levado a cabo por Ezequías. E então se expõe outra questão: Como Hircano II, pontífice e rei de Israel, pôde sentir-se indignado pelo fato de que Herodes mandasse executar ao cabeça de uns bandoleiros? Pois simplesmente porque esse "bandoleiro" era, em realidade, o chefe da estirpe real, um "filho de David"; esse rei "em potência" provavelmente tinha recebido já a unção entre seus seguidores, e seu banditismo era, de fato, a manifestação da resistência judia. Hircano II, embora tinha um sucessor legítimo na pessoa de seu irmão Aristóbulo II, não esqueceria que a dinastia asmonéia era uma usurpadora do trono de Israel, e que a legitimidade real e religiosa, associadas, repousavam no seio da filiação davídica. Porque, como pontífice supremo, não esqueceria a promessa divina, essa promessa que o profeta Natan recebeu do Eterno e que tinha ordem de comunicar ao David: "Quando seus dias tenham chegado ao cúmulo e tenha repousado com seus pais, eu farei subsistir a semente que sairá de suas vísceras... Por isso serão estáveis sua casa e seu reino para sempre ante mim... (Cf. II Samuel, 7, 12, 16). Pois bem, esse Ezequias tinha um filho, que lhe sucederia em cabeça do movimento.
5 - Juda-har-Gamala
A Guerra e a Fome vagavam por nossas cidades,
E nós gritávamos, desesperados, nos suplícios:
Quando virá a nosso lado, Liberdade?
Quanta demora, Justiça!
MAURICE MAGRE, Le Poète et la Cité, la Liberté
"Havia deste modo um tal Judas, filho de Ezequías, aquele temível cabeça de bandoleiros a quem antigamente Herodes não conseguisse apreender a não ser depois das maiores dificuldades. Esse Judas reuniu ao redor de Séforis, na Galiléia, uma tropa de desesperados, e efetuou uma incursão no palácio real. Apoderou-se de todas as armas que se encontravam ali, equipou com elas a todos quantos lhe rodeavam, e se levou todas as riquezas que recolhera de tal lugar. Aterrorizava a todos em volta por causa de suas invasões e seus saques, que tinham como meta alcançar uma elevada fortuna e inclusive as honras da realeza, já que esperava elevar-se a tal dignidade, embora não mediante a prática da virtude, a não ser precisamente mediante os excessos da injustiça" (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XVII, X).
Deixemos ao Flavio Josefo e seu rancor (porque as teve com os zelotes), e constatemos que, de fato, ao apoderar do palácio real de Séforis, e ao expulsar dele àqueles aos quais considerava usurpadores (Herodes, o Grande, e toda sua corte), Judas-bar-Ezequías não fez a não ser vingar a seu pai e recuperar seus legítimos bens. Ainda mais que há uma zona de sombras bastante misteriosa em tudo isso. Logo o veremos. Maria-Bath-Ioachim, a mãe de Jesus e a esposa de Judas da Gamala, nascera em Séforis, e nessa primeira fase que entrou em guerra, Judas-bar-Ezequías possivelmente tinha outras contas que arrumar das quais já não sabemos nada, pois Maria era também de filiação davídica, e sua família era rica, como logo veremos. E isto tende a demonstrar que Judas da Gamala e seu pai Ezequías não foram uns bandoleiros ordinários, como pretende Flavio Josefo, mas sim existiu uma doutrina, que foi elaborada por ele e que logo se converteu na de todo seu movimento. Em suas Antigüidades judaicas, Flavio Josefo nos descreve quatro seitas que se repartem o povo hebreu. Primeiro cita aos fariseus e os saduceus, logo aos essênios. E a seguir uma quarta: "Mas um tal Judas o Gaulanita, da cidade da Gamala, acompanhou-se de um fariseu chamado Saddoc, e se precipitou na rebelião. Pretendiam que tal censo não trazia consigo a não ser uma servidão completa, e apelavam ao povo a que reivindicasse sua liberdade... A quarta seita filosófica teve como autor a esse Judas, o Galileu. Seus sectários concordam em geral com a doutrina dos fariseus, mas sentem um invencível amor pela liberdade, já que julgam que Deus é o único chefe e o único senhor".( Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XVIII, I).


Esse Judas da Gamala, chamado também Judas da Galiléia ou Judas, o Galaunita, cujo nome de circuncisão era Judas-bar-Ezequias, morreu no curso da segunda revolução do ano 6 de nossa era. Teve vários filhos, dos quais pelo menos seis pereceram de morte violenta, em mãos de Roma e de seus procuradores. O mais célebre foi, evidentemente, Jesus, seu filho primogênito.
6 - Simão-Pedro
Alguns eruditos dizem que São Pedro não esteve jamais em Roma; e o Papa se viu em dificuldades na hora de replicar a tais sábios... Só São Paulo é indubitável que esteve ali...
MARTIN LUTERO, Wider das Papsttum vom Teufel gestiftet
De fato, a lenda da morte de Simão-Pedro em Roma não apareceu nem tomou corpo até princípios do século III. Já precisamos as circunstâncias em uma obra precedente. (22) Por isso é que o Papa Pio XI (cardeal Achille Ratti, 1857-1939) pôde declarar, em privado, naturalmente, que em sua opinião "era seguro que São Pedro não pôs jamais os pés em Roma...". É evidente.
E, com efeito, Simão-Pedro desaparece bruscamente, em só algumas linhas, dos Atos dos Apóstolos. Fora detido por ordem de Herodes Agripa I (rei da Judéia desde ano 37, rei da Judéia e de Samaria desde o ano 41, morto em 44). Simão-Pedro estava encadeado, dormindo entre quatro soldados do chamado Herodes Agripa. Um anjo lhe apareceu no curso da noite, e as cadeias se soltaram. Seguiu ao anjo, e as comportas abriram-se sozinhas, misteriosamente, ante ele. Uma vez na rua, o anjo desapareceu e Pedro recuperou o contato com a realidade. dirigiu-se então, a toda pressa, a casa de "Maria, mãe de João, de apelido Marcos", deu-se a conhecer à servente Rodeh através da porta, e mandou aviso ao Santiago e a seus irmãos de sua liberação. Isso significa que: "Depois saiu e se foi a outro lugar...". (Cf. Atos dos Apóstolos, 12, 6 a 17). E já está... (23)
Isso é tudo, e nunca mais ouviremos falar de Simão-Pedro no relato apostólico. E Dom J. Dupont O. S. B., cuja versão dos Atos dos Apóstolos seguem na Bíblia de Jerusalém, conclui, tranqüilizado no que se refere à sorte de Simão-Pedro, mas sem demonstrar tampouco muita curiosidade pelo que segue: "Encontramos aqui uma pequena história cheia de vida, de detalhes pitorescos, de prodígios populares...". (op. cit., pág. 115). De prodígios populares. Recordemos o termo, é perfeito. Ao menos este exegeta não é vítima de toda essa perpétua fantasmagoria. Porque relatar o fim de Simão-Pedro e de Jacobo-Santiago, crucificados ambos no ano 47 em Jerusalém, por ordem de Tibério Alexandre, procurador de Roma, "por ser filhos de Judas de Gamala, (24)" seria descobrir o bolo. Mas é evidente que o tal Simão, como todos outros, morreu na Palestina.
Por tratar-se de uma região submetida por excelência à revoluções esporádicas, esta província estava sujeita a uma vigilância especial por parte das autoridades romanas. E se se têm em conta os postos militares, com barreiras, e às vezes inclusive leva (como as famosas Portas cilícias que separavam Síria de Cilícia e obturavam um estreito desfiladeiro), postos que cortavam todas as vias de comunicação, e que terei que franquear necessariamente para passar de uma província a outra (abonando as inevitáveis taxas de passagem, como é óbvio, tanto para os homens como para os animais), tendo em conta que terei que justificar de maneira válida uma petição de embarque com destino à Itália, a causa do decreto de Tibério César (no ano 19), confirmado pelo de Claudio (em 49), pelo que se expulsava da Itália aos judeus livres, e não se permitia que permanecessem ali mais que os escravos do lugar e que eram propriedade de um dono, tendo em conta todas essas consideráveis dificuldades, não vemos como Simão-Pedro, chamado o Zelote, quer dizer, o Sicário, ou também Simão Ishkarioth, quer dizer, o "matador" (Lucas, 6, 15, e Atos, 1, 13), com tal reputação, obteria das autoridades romanas ocupantes a permissão e o visto que facilitassem uma viagem à Roma, capital do Império Romano.


E além disso, a que teria ido ali? Todo o movimento zelote, que desde que se produzira a morte de Jesus, seu irmão maior, (25) o dirigia ele, ajudado por Jacobo-Santiago, "irmão do Senhor" (Cf. Paulo, Epístola aos gálatas, 2, 9), tinha seus interesses e seus motivos, assim como as atividades políticas que resultavam de tudo isso, exclusivamente na Palestina. Recordemos a recomendação de Jesus: "Não vão aos gentis nem penetrem em cidade de samaritanos; mas vão às ovelhas perdidas da casa de Israel ..." (Mateus, 10, 5-6, e 15, 24).
E Clemente de Alexandria (Stromates, VI, V, 43), e Eusebio de Cesaréia (História eclesiástica, V, XVIII), contam que Jesus ordenou aos apóstolos que não se afastassem de Jerusalém durante doze anos. Isto nos leva ao ano 47 de nossa era, e este ano é precisamente o da morte de Pedro e de Santiago, crucificados em Jerusalém. Como se vê, esses versículos constituem a negação mesma da missão que se atribuirá logo Saulo-Paulo, e justificarão a desconfiança, e logo a hostilidade, que lhe testemunharão os sucessores de Jesus na cabeça do messianismo político.
Por outro lado, tentando afirmar essa estadia de Pedro em Roma, o Papa Pio XII fez efetuar longas e custosas escavações a fim de provar que seus restos foram descobertos sob a basílica de São Pedro de Roma. De fato, só se encontraram, em um esconderijo das muralhas da base, algumas ossaturas não identificadas. Também podia tratar-se dos vestígios de um sacrifício de fundação, rito trágico que os colégios romanos de construtores conservaram durante longo tempo, já que, inclusive sob os imperadores cristãos, as famílias proibiam aos meninos e aos adolescentes que, ao cair a noite, aproximassem-se das grandes pedreiras de construção. Por certo que, depois desta burla oficial, o R.P. Maxime Gorce, arqueólogo e provincial dos dominicanos, abandonou indignado a Igreja católica, e passou à Igreja anglicana.
De todo modo, esses restos tão penosamente descobertos seriam a contradição do que se oferece à veneração dos fiéis na basílica de São João de Letrán, ou seja, um tabernáculo, em cima do altar papal, que encerra, segundo a tradição da Igreja, os crânios de Pedro e de Paulo. Tal basílica, construída originariamente pelo Papa Milcíades por ordem de Constantino, destruída e restaurada várias vezes, incendiada no ano 1308, reconstruída por Clemente V, volta a incendiar em 1360, volta a reconstruir sob Urbano V, deve possivelmente todas suas desgraças ao bem conhecido antagonismo desses dois apóstolos, que não podiam sofrer-se mutuamente. E essa inflamada antipatia se perpetuaria então post mortem, sobretudo se Saulo-Paulo estava detrás da detenção e a execução de Pedro e de Santiago, como tudo tende a fazer acreditar.
Estudamos em outra obra a técnica das "interpolações com reengaje" que utilizaram (e das que abusaram) nossos falsificadores anônimos do século IV. (26)


Aqui nos limitaremos a pôr de manifesto a que foi utilizada pelos mesmos para fazer acreditar que Jesus confiou a direção de sua "igreja" ao Simão-Pedro. Pretensão que, por outra parte, cai por si mesmo se se recordar que, para ele, a criação de uma organização religiosa com projeção no futuro era absolutamente impensável, já que o chamado Jesus afirmava que o fim do mundo estava próximo e que tudo isso devia acontecer "antes de que esta geração passe". (Mateus, 24, 34; Marcos, 13, 30; Lucas, 21, 32).
Coloquemos, pois, em evidência a impostura dos escribas "às ordens de...". Tomamos nossas citações da versão católica romana de Lemestre de Sacy: Marcos, 8, 27-30; Mateus, 16, 13-20; Lucas, 9, 18-21: "Ia Jesus com seus discípulos às aldeias de Cesaréia de Filipo, e no caminho lhes perguntou: Quem dizem os homens que sou eu? Eles lhe responderam: Uns, que João Batista; outros que Elias, e outros, que um dos profetas. Ele lhes perguntou: E vós, quem dizem que sou eu? Respondendo Pedro, disse-lhe: Você é o Messias".
Fragmento interpolado
"E lhes encarregou que a ninguém dissessem isto Dele".
"Vindo Jesus à região de Cesaréia de Filipo, perguntou a seus discípulos:
Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?
Eles responderam: Uns, que João o Batista; outros, que Elías, outros, que Jeremías ou outro dos profetas. E Ele lhes disse: E vós, quem dizem que sou eu? Tomando a palavra Simão-Pedro, disse: Você é o Messias, o Filho de Deus vivo".
"E Jesus, respondendo, disse: Bem-aventurado você, Simão-bar-jona, porque não é a carne nem o sangue quem isto te revelou, a não ser meu Pai, que está nos céus. E eu digo a tí que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei eu minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela".
"Então ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem que Ele era o Messias".
"Aconteceu que, orando Ele a sós, estavam com Ele os discípulos, aos quais perguntou: Quem dizem as multidões que sou eu? Respondendo eles, disseram-lhe: João Batista; outros, Elías; outros, que um dos antigos profetas ressuscitou. Disse-lhes Ele: E vós, quem dizem que sou eu? Respondendo Pedro, disse: O Ungido de Deus".
"Jesus lhes proibiu com ameaças dizer isto".
É fácil constatar que a famosa passagem conhecida como o das "chaves" foi interpolada, e isso em uma época em que terá que impor a supremacia do bispo de Roma sobre todas as demais. O Evangelho de João, por sua parte, ignora tudo isto. Em conclusão, além do princípio dos Atos dos Apóstolos (1, 13), onde se evoca sua existência embora de forma muito rápida, não sabemos nada canonicamente válido sobre esses onze homens, já que o que compunha doze fora executado por eles ou por ordem deles, como conseqüência de sua traição (sobre a morte de Judas Iscariotes remetemos ao leitor à obra precedente). (27)
Tal como assinala monsenhor Duchesne, e antes dele Clemente de Alexandria, todos desapareceram de repente e sem fazer ruído na história. Esse silêncio foi intencionado. Muitos séculos depois, um dominicano italiano, Jacques de Voragine, que morreu em 1298, redigiu um amplo compêndio hagiográfico ao qual intitulou, com toda franqueza, Legenda áurea, quer dizer, A lenda dourada. Portanto, não se trata mas sim de lendas e de nada mais, do contrário teria intitulado seu livro História aurea, História dourada. Além disso, a gente pode perguntar-se de que documentos, ignorados ou desconhecidos, disporia no século XIII, além dos arquivos secretos do papado. E se essas peças existissem como deve ser, e fossem conservadas, não deixariam de nos expor isso ainda em nossos dias. E tal não é o caso.
Mas o método histórico deve ser implacável, e não se deve deter nem limitar por nenhum tabu. Além disso, o verdadeiro historiador e curioso por natureza; há nele um pouco de juiz de instrução. E, como deformação profissional, todo silêncio lhe parece suspeito, pois é uma negativa a dar resposta. Por conseguinte, essa negativa oculta algo muito importante, e portanto é aí onde terá que afundar. Em contrapartida, o historiador conformista não é mais que um simples historiógrafo, um dócil compilador, e seu papel é muito diferente.
Partindo desses princípios básicos, nós aprofundaremos na segunda parte o "secreto da Igreja" (28), esse segredo evocado pelo juramento do bispo o dia de sua consagração, e é tão secreto que o pontifical romano só fala em singular: concilium vero ...
Esta segunda parte do segredo tem relação com os "filhos de David", portanto, é conveniente estudar antes suas características genealógicas.
Voltemos, pois, agora aos outros filhos de Judas da Galiléia, e vejamos o que diz a respeito Flavio Josefo: "Foi sob este último precursor (Tibério Alexandre) quando sofreu Judéia a enorme carência de mantimentos que fez que a rainha Elena (rainha de Abdiadena) comprasse trigo do Egito a elevado preço para distribui-lo aos indigentes, tal como disse antes. Foi também naquele momento quando capturaram aos filhos de Judas da Galiléia, que incitaram ao povo a rebelar-se contra os romanos quando Quirino procedia ao censo de Judéia, como contamos precedentemente. Esses dois eram Jacobo e Simão. Alexandre ordenou crucificá-los..." (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XX, V, 2).
É evidente que Jacobo, nome hebraico, é nosso Santiago apóstolo (em latim: Jacobus; em grego: Jacobos). Seu companheiro é nosso Simão, por apelido Pedro. E por esta razão é que não se encontra já nenhum rastro mais dele depois do sínodo de Jerusalém (Atos dos Apóstolos, 15), nem tampouco de seu irmão Santiago, aliás Jacobo.
Eusebio da Cesaréia, em sua História eclesiástica, quão único confirma é que se achava em Jerusalém "durante a época da fome" (op. cit., III, VII, 8), o que nos confirma que se trata, efetivamente, de nosso personagem. Encontramo-nos, pois, nos anos 46-47, e tudo coincide à perfeição. Assim, Simão-Pedro e Santiago, o Maior, (29) aliás Simão-bar-Juda e Jacobo-bar-Juda segundo seus nomes de circuncisão, foram crucificados juntos, em Jerusalém, sob o procurador Tibério Alexandre.
Observe-se também que sempre lhes cita como inseparáveis: "Logo, passados três anos, subi à Jerusalém para conhecer Cefas (aliás Simão-Pedro), a cujo lado permaneci quinze dias. A nenhum outro dos apóstolos vi, se não foi ao Santiago, o irmão do Senhor". (Cf. Paulo, Epístola aos Gálatas, 1, 18-19).


Simão-Pedro não morreu, portanto, em Roma no ano 64 ou 67 (não se está muito seguro da data), crucificado de cabeça para baixo a pedido dele. Faltaria, pois, saber onde esteve e o que fez durante os dezessete ou vinte anos que separam o ano 47, em que desaparece do novo Testamento, sob o Claudio César, de sua pretendida morte em Roma, no 64 ou 67.
Agora bem, Simão-Pedro e Santiago, seu irmão, têm outros vários irmãos mais, e isto não o inventamos: "Não é acaso o carpintero, (30) filho de Maria, e o irmão de Santiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não vivem aqui entre nós...? (Marcos, 6, 3).
Jesus, por outro lado, faz uma alusão muito clara à suas relações familiares e de sangue com Simão-Pedro, quando lhe diz: "Bem-aventurado você, Simão-bar-jona (em acádio: o anarquista, o fora da lei), porque não é a carne nem o sangue quem isto te revelou, a não ser meu Pai, que está nos céus ..." (Mateus, 16, 17).
O que quer dizer claramente que o fato de que Jesus seja o Cristo, em hebreu o Messiah tão esperado, Simão-Pedro o reconhece não por efeito de uma simples tradição familiar, por causa dos laços da carne e do sangue, mas sim por uma verdadeira intuição espiritual de origem divina. O que implica, por outra parte de Jesus, a confissão implícita dos laços familiares e de sangue com Simão-Pedro, coisa que nos ocultou sempre cuidadosamente.


Sobre a absoluta certeza de que os termos de irmãos e irmãs não devem tomar-se no sentido de primos e primas, e sobre a demonstração que disso fizemos, remetemos à obra precedente. (31)
Esse "carpinteiro" do qual fala Marcos é Jesus.
E então, silogismo inatacável, se Santiago (Jacobo) e Simão (Simão) são irmãos de Jesus, e se forem deste modo filhos de Judas da Galiléia, é que este último também o é. E se este descobrimento satisfaz ao historiador equilibrado e sincero, é porque pode concluir que Maria, sua mãe carnal, concebeu-o como se concebe a todos os filhos dos homens. Nenhum arcanjo veio a fecundá-la em nome de um Espírito Santo, terceira "pessoa" de uma trindade divina desconhecida em Israel, já que semelhante hipótese constituiria uma blasfêmia sobre a unicidade divina. E, o que é mais, os discípulos de João, o Batista ignoraram sempre que houve um Espírito Santo: "Ele (Paulo) achou ali alguns discípulos e lhes disse: "recebestes o Espírito Santo ao abraçar a fé?". Eles lhe responderam: "Nem sequer ouvimos que exista um Espírito Santo?..." (Cf. Atos dos Apóstolos, 19, 1-3).
Observemos de passagem que Maria foi milagrosamente fecundada pela orelha, como assegura às vezes o povo ordinário em são de brincadeira: "No mesmo instante, enquanto a virgem Santa dizia essas palavras e se humilhava, o Verbo de Deus penetrou nela por sua orelha ... E no mesmo momento começou o embaraço da Santa virgem". (Cf. O livro armênio da infância, V, 9).
Terá que confessar que para a população judia, imbuída da célebre salmodia ritual: "Schema Israel! Adonai elohenou! Adonai echad!...", quer dizer, "Escuta, Oh Israel! Yavé é nosso Deus, Yavé é UM SÓ..." (Deuteronômio, 6, 4), ver que lhes ensinassem que há três deuses diferentes em um só representaria pura e simplesmente uma blasfêmia. Por outra parte, a afirmação injuriosa, lançada ulteriormente por alguns talmudistas, de que Jesus foi o bastardo adultério de Maria e de um legionário sírio chamado Bar-Panteros, não tem fundamento, uma vez descoberto seu marido real, pai legítimo de seus filhos.
E agora vamos poder estabelecer a ficha de filiação de cada um dos outros apóstolos, e ver o que foi deles. Para relembrar à memória, recordemos seus nomes dados por Mateus (10, 2), Lucas (22, 14), e Atos (1, 2). São: Simão, André, Santiago, o Maior, João, Felipe, Bartolomeu, Mateus, Tomás, Santiago, o Menor, Tadeu, Judas Iscariotes.
Não fazemos figurar ao décimo segundo, chamado Simão, porque já demonstramos sua identidade como Simão-Pedro. Não obstante, parece-nos necessário efetuar um último resumo em relação a ele, já que há contradições que não podem reduzir-se ao silêncio se não se contribuírem com argumentos apropriados: por lógica, o Simão apelidado o Zelote (Lucas, 6, 15; Atos,1, 13), o Cananeu (Marcos, 3, 18), ou o Iscariotes (João, 6, 70), ao que Jesus chama bar-jona (em acádio: fora da lei), ao que Herodes Agripa I faz capturar em Jerusalém no ano 45 de nossa era (Atos, 12, 3), é o mesmo personagem que Simão filho de Judas da Gamala, e portanto, zelote como seu pai, e a quem o procurador Tibério Alexandre mandou crucificar com seu irmão Jacobo (Santiago) no ano 47 em Jerusalém (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XX, c, 2). Negar esta identidade parece-nos, portanto, uma grande imprudência, já que seria sublinhar que Jesus não se rodeava mas sim de extremistas, partidários de toda violência.


Não podemos deixar o personagem de Simão-Pedro sem mostrar uma vez mais a desavergonhada falsificação sofrida pela história, ao passar pelo cálamo dos escribas anônimos do século IV. Vejamos um mesmo episódio, relatado primeiro por Flavio Josefo, e logo por eles: "Aconteceu que um judeu de Jerusalém, chamado Simão, que tinha a reputação de conhecer bem a lei, convocou à multidão a uma assembléia enquanto o rei (Herodes Agripa I) tinha partido para à Cesaréia, e ousou acusá-lo de impuro e de merecer ser expulso do Templo, cujo acesso não estava permitido a não ser às pessoas do país. Uma carta do prefeito da cidade fez saber ao rei que Simão discutira assim ao povo, o rei lhe mandou acudir à Cesaréia e, como então se encontrava no teatro, fez-lhe tomar assento a seu lado. Logo, com calma e suavidade, disse-lhe: "me diga se houver aqui algo que esteja proibido pela Lei..." O outro, não sabendo o que responder, rogou-lhe que lhe perdoasse. Então o rei se reconciliou com ele mais rápido do que se esperava, posto que julgava que a suavidade era mais digna de um rei que a cólera, e sabia que à grandeza convém mais a moderação que o arrebatamento. E deixou ir Simão, depois de lhe haver devotado inclusive um presente". (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XIX, VIII, 4).
É evidente que este episódio é o equivalente daquele dos Atos no que vemos o Simão-Pedro e aos outros que "estando todos reunidos no pórtico de Salomão, ninguém dos outros se atrevia a unir-se a eles, mas o povo os tinha em grande estima". (Cf. Atos dos Apóstolos, 5, 12-13). Porque se não se atreviam a unir-se a eles, é que suas arengas eram muito comprometedoras, não se tratava dos lugares comuns sobre o amor ao próximo ou a boa conduta moral. E por isso o prefeito de Jerusalém, que representava ao rei Herodes Agripa I, acreditou-se na obrigação de advertir a este último. A continuação, como acabamos de ler em Flavio Josefo, reza com aquilo de que bem está o que bem acaba, e esse relato está dentro da plausibilidade mais evidente. Mas vejamos no que se converte essa história sob a pluma de nossos piedosos falsificadores: "Por aquela mesma época, o rei Herodes maltratou alguns membros da Igreja, e deu morte, pela espada, ao Santiago, irmão de João. (32) Vendo que isto era do agrado dos judeus, mandou capturar também ao Pedro. Isto acontecia durante os dias do pão ázimo. Depois de havê-lo capturado e encarcerado, pô-lo sob a guarda de quatro esquadras de quatro soldados cada uma, com a intenção de fazê-lo comparecer ante o povo depois de Páscoa. Assim, Pedro estava na prisão, e a Igreja não cessava de dirigir orações a Deus, rogando por ele.
"A noite que precedeu ao dia em que Herodes ia fazê-lo comparecer, Pedro, preso por duas cadeias, dormia entre dois soldados; e havia uns sentinelas diante da porta, guardando a prisão. E eis que apareceu um anjo do Senhor, e uma luz brilhou na masmorra. O anjo despertou Pedro, dando-lhe uns toques no flanco e lhe dizendo: "te levante rápido!". As cadeias caíram de suas mãos. E o anjo lhe disse: "Ponha o cinturão e as sandálias". E assim o fez. O anjo lhe disse ainda: "te envolva com seu manto e me siga". Pedro saiu e o seguiu, sem saber que o que fazia o anjo era real, e imaginando que era vítima de uma visão. Quando passaram pelo primeiro guarda, e logo o segunda, chegaram à porta de ferro que conduz à cidade, e esta se abriu sozinha diante deles, saíram e entraram em uma rua. E em seguida o anjo abandonou Pedro.
"Então Pedro, voltado em si, disse: "agora me dou conta de que realmente o Senhor enviou seu anjo e me arrancou das mãos de Herodes e de toda a espera do povo judeu". Depois de ter refletido, foi à casa de Maria, a mãe de João, por apelido Marcos, onde estavam muitos reunidos e orando. Golpeou a porta do vestíbulo e saiu uma serva chamada Rodeh, que logo reconheceu a voz de Pedro, fora de si de alegria, sem abrir a porta, correu a anunciar que Pedro estava no vestíbulo. Eles lhe disseram: "Está louca". Insistia ela em que era assim, e então disseram: "Será seu anjo". Pedro seguia golpeando, e quando lhe abriram e lhe conheceram, ficaram estupefatos. lhes fazendo sinal com a mão de que calassem, Pedro lhes contou como o Senhor lhe tirara do cárcere, e acrescentou: "Contem isto ao Santiago e aos Irmãos". Depois saiu e foi a outro lugar". (Cf. Atos dos Apóstolos, 12, 1-17). Todo comentário seria, evidentemente, inútil. Mas ainda assim, permitimos nos assombrar de que Simão-Pedro, que estava tão severamente vigiado, conservasse ao alcance da mão toda seu pequeno equipamento: manto, cinturão e sandálias. E do mesmo modo, é igual a surpresa que o redator anônimo dos Atos dos Apóstolos, que nos afirma que foi Lucas, secretário de São Paulo (33), quem freqüentou ao Pedro, ignore tudo que se refere ao lugar aonde acudiu este último, assim como as atividades posteriores deste. Porque jamais volta a aparecer Pedro nos relatos dos Atos, e tão somente nos inteiramos de sua sorte última através de Flavio Josefo.
Há ainda um ponto a assinalar sobre a inexistência da noção de um pontífice a princípio do século IV: Eusebio da Cesaréia, ao redigir sua célebre História eclesiástica, em sua primeira metade, não conhece outra coisa em Roma que um bispo como outros. Julgue-se: "Os mesmos recomendaram ao Irineu, que então era o sacerdote da cristandade de Lyon, ao bispo de Roma do que se acaba de tratar... (op. cit. V, IV, 1).
O cônego Bardy, em suas notas às traduções de Eusebio, observa (op. cit, V, IV, 2): "O título de padre não é aqui a não ser um termo de respeito. Sabe-se que, mais tarde, sob a forma de "Papa", converter-se-á no título reservado ao bispo de Roma".
Isto aparece sublinhado ainda por outra passagem de Eusebio: "Para mim, recebi esta regra e este modelo de nosso bem-aventurado Papa Heraclas" (Op. cit. VII, VII, 41).
Agora bem, Heraclas era simplesmente bispo de Alexandria. Daí a nota do cônego Bardy: "A palavra Papa aplica-se ainda nesta época a todos os bispos".


Sobre o de "bispo de Roma", simplesmente, e não "o Papa", citemos ainda, do mesmo Eusebio da Cesaréia: História eclesiástica, V, XXIV, 9; XXV, 14; XL, III, 3; VI, XLVI, 3; IV, V, 2; VII, V, 3, VI; VII, VII, 6; V, 21, etcétera.
Assim, no século IV, para o historiador oficial da Igreja dos primeiros séculos, não existe nenhuma Papa cabeça da Igreja, só há um bispo de Roma, sem mais, igual, mas não superior, a todos outros. E necessitar-se-ão séculos e séculos para chegar a ver os fiéis, ignorando tudo da história de sua religião, prosternar-se ante um homem quase deificado, e beijar devotamente sua sandália, com grande escândalo dos primeiros doutores da Reforma.
NOTAS COMPLEMENTARES
Nos Atos dos Apóstolos (9, 36-42), vemos Simão-Pedro ressuscitando a um tal Tabitha-Dorcas, que figura "entre os discípulos" (sic) e que vive em Joppe.
Agora bem, em Guerra dos judeus, de Flavio Josefo, vemos um tal João (Iochanan), da cidade de Gischala da Galiléia, chefe zelote insurreto, levantado contra Roma, que "... querendo matar também àqueles, enviou a um assassino chamado Tabitha...". (op. cit., IV, II, manuscrito eslavo). E o manuscrito grego da mesma obra o diz: "... filho de Dorcas", quer dizer, em hebreu: X...-bar-Tabitha. A partir daí é fácil estabelecer nosso silogismo.
a) maior: Tabitha-Dorcas é um discípulo de Jesus (Atos, 9, 36), e figura entre eles, em Joppe;
b) menor: este Tabitha-Dorcas tem um filho, chamado X...-bar-Tabitha, que é um sicário, sob as ordens de João da Gischala, chefe zelote insurreto;
c) conclusão: esses "discípulos de Jesus" não são, pois, outra coisa que zelotes, que contam entre eles elementos ainda mais extremistas (sicários), coisa que a continuação nos confirmará (veja o capítulo 8), já que, segundo Flavio Josefo, esse João era: Galileu, mago e aspirante à realeza, o que demonstra que era, mais que provavelmente, "filho de David" ele também.
Como se vê, caímos sem cessar nos mesmos ambientes, e não saímos da mesma família.
Sobre a pseudo-tumba de Pedro em Roma, cf. MAXIME GORCE, La verité avant tout (Paris, 1959, J. Vitiano édit.).
7 - Os irmãos Santiago
São os ricos os que lhes oprimem e lhes arrastam ante os tribunais, e são eles os que blasfemam do formoso Nome que foi invocado sobre vós.
Epístola de Santiago, II, 6-7
Se duvidássemos de que Santiago da Epístola é um zelote, bastar-nos-ia continuando a leitura, pois é muito edificante sobre este particular: "Agora lhes toca a vós, ricos! Chorem, gritem pelas desgraças que vai abater sobre vós! Suas riquezas estão podres, e suas vestimentas roídas pelos vermes. Seu ouro e sua prata estão oxidados, e sua ferrugem se elevará em testemunho contra vós: como um fogo devorará sua carne. Amassastes seus tesouros nos últimos dias! Grita contra vós o salário dos operários que têm feito a colheita em seus campos e do que lhes privastes! E os gritos desses colhedores chegaram até os ouvidos do Senhor dos Exércitos..."(34) (Op. cit. V, 1-5).
Está muito claro, e tão mais que a citada Epístola está dirigida "às doze tribos que estão dispersas", quer dizer, a toda a Diáspora. Como observa muito exatamente Charles Guignebert: "...O interesse que lhe concede é grande, porque aparece como muito pouco cristão, muito judaizante, e antipaulino). (Cf. Charles Guignebert, O Cristo, I, I.)
Sobre os dois apóstolos que levam esse nome, o Maior e o Menor, reina uma confusão provavelmente intencionada, e organizada para o século IV. Eusebio da Cesaréia nos diz, com efeito, o seguinte: "Houve dois Santiagos: um era o Justo, que foi precipitado do pináculo do Templo e golpeado até a morte com uma fortificação de batanear, e o outro, que foi decapitado". (Cf. Eusebio da Cesaréia, História eclesiástica, II, I, 5.)
Seja o que for, para o Teofilacto, bispo de Acrida, em Bulgareia, antes de 1078, a "Maria, mãe de Santiago" citada em Lucas (24, 10), e evocada em João (19, 24-27), não é outra que a "Théotokôs", quer dizer, Maria mãe de Jesus (cf. Seu Comentário sobre o Protoevangelio de Santiago, citado pelo abade Emile Amann em Protévangile, Paris, 1910, Letouzey édit., Imprimatur Paris, 1910).
Temos, pois, um bispo do Oriente que, no século XI, ignora, ou nega, a perpétua virgindade de Maria, e o que é pior, sabe que Jesus e Santiago são verdadeiros irmãos, no sentido de consangüinidade da expressão.
O cônego G. Bardy, tradutor, comentarista e anotador da obra de Eusebio da Cesaréia (Imprimatur: Divione, 1951), ao pé da página 50 do quarto tomo acrescenta as seguintes nota: (9) "Nesta passagem, Clemente (Hypotyposes, livro VII) parece não conhecer mais que a dois Santiagos: o Justo e o irmão de João. Haveria, pois, que concluir que identifica ao Justo com o filho de Alfeu, que é mencionado nos Evangelhos como um dos Doze; cf. M-J. Lagrange, op. cit., página 87. Esta conclusão não se impõe absolutamente. Em outro lugar (Stromates, VII, 93-94), Clemente faz de Santiago, o Justo, um filho de José. E o mesmo Adumbrat.in epist. Canonicas, fragmento 13, Staehlin edit., III, 206". "(10) Clemente de Alexandria, Hypotyposes, fragmento 13, Staehlin edit., III, P. 199. Staehlin atribui inclusive a frase seguinte a Clemente. Pelo contrário, os editores de Eusebio atribuem-na ao historiador. Sobre estes fragmentos das Hypotyposes, veja-se Th. Zahn, Forschungen, III, P. 73 e ss."


Tentemos ver claro, embora não seja nada fácil.
Herodes Agripa I morreu em Cesaréia, na primavera, e provavelmente em 10 de março do ano 44 (no calendário gregoriano, quer dizer, o 1 no calendário Juliano), de uma morte muito digna, como nos precisa Flavio Josefo (Antigüidades judaicas, XIX, VIII), e não escandalosa, como pretendesse o anônimo autor dos Atos dos Apóstolos (12, 21-24). Seria ele quem mandou decapitar ao Santiago "irmão de João", e portanto "filho de Zebedeu", se dermos crédito aos mesmos Atos (12, 1-2), e isso teria lugar em Jerusalém, ao mesmo tempo que procedia à detenção de Simão-Pedro. Já vimos que tudo isso era falso (veja o capítulo 6).
Desde esse momento, permitimo-nos expor algumas questões bastante embaraçosas:
a) Se Santiago (Jacobo), filho de Zebedeu e irmão de João, foi segundo os Atos dos Apóstolos, decapitado em finais do ano 43 ou princípio do ano 44 em Jerusalém, por ordem de Herodes Agripa I, como pôde evangelizar a Espanha e morrer nela, se sua tumba se encontrar oficialmente na basílica de Santiago de Compostela, na extrema ponta noroeste da Espanha atlântica, o que implica que tinha que passar necessariamente pelas "colunas de Hércules" (Gibraltar), coisa que, naquela época, era uma verdadeira aventura marinha?
Na realidade, até o século VII não começaria a difundir a lenda de Santiago evangelizando a Espanha, e foi na primeira metade do século IX quando uma estrela resplandeceu acima de um campo, assinalando assim a tumba do apóstolo, até então ignorada. O rei Alfonso II de Astúrias aproveitou em seguida a ocasião e mandou erigir uma igreja que os árabes infiéis, insensíveis ao piedoso engano, fizeram demolir a seguir.
b) Se foi só seu cadáver o que foi milagrosamente transportado pelos ares ao famoso campo de "compostella", como pôde evangelizar a Espanha uma vez morto?
c) Se de verdade evangelizou em vida a Espanha, depois da morte de Jesus, e se, depois de retornar imediatamente à Judéia, foi decapitado ali nos anos 43 ou 44, expõem-se outras perguntas:
1) Como pôde em tão pouco tempo evangelizar essa mesma Espanha, e uma região desconhecida, onde a própria Roma logo que tinha acesso?
2) Por que retornou imediatamente à Judéia, para que ali lhe decapitassem, ignorando assim a sorte que lhe esperava?
3) Por que, depois dessa execução, foi transferido milagrosamente seu cadáver à ponta atlântica extrema dessa "província" romana, que não o era mais que de nome, e que virtualmente se limitava à suas regiões mediterrâneas?
Porque, afinal de contas, o santuário de Compostela representa, há numerosos séculos, um imenso ingresso para a cristandade, e a venda do Livro dos Atos dos Apóstolos também. Então, pois, qual dos dois obtém uma arrecadação ilícita, e portanto impura?
Como se vê por tudo isto, os escribas iniciais, desejosos de velar a qualquer preço a verdadeira personalidade dos dois Jacobo-Santiago, embrulharam-se mutuamente em suas redações trucadas. E isso aconteceu por falta de uma sincronização de seus trabalhos comuns, impossível de obter naquela época pela ausência de comunicações regulares. A verdade, como sempre, é muito mais singela. Recapitulemos.
Santiago, o Maior, foi crucificado no ano 47, com Simão-Pedro, à saída do sínodo de Jerusalém, durante a época de fome que seguiu à nova insurreição dos zelotes (veja o capítulo 6).
Não foi absolutamente decapitado por ordem do rei Herodes Agripa I, porque o rei benevolente e generoso que nos descreve Flavio Josefo, o rei que perdoa injúrias e as calúnias de Simão-Pedro e o deixa partir logo após dando-lhe inclusive alguns presente (veja o capítulo 6), não tinha nenhuma razão para fazer cortar a cabeça a seu irmão, e é ao Tibério Alexandre, procurador de Roma, a quem terá que imputar esta dupla crucificação.
E se dermos crédito à Clemente de Roma em sua I Epístola e à carta de Ignacio de Antioquía aos romanos, Simão-Pedro foi executado depois de ser denunciado (cf. Clemente de Roma, I Epístola, V). Não é necessário procurar nada, o responsável por tal denúncia foi Saulo-Paulo (35), e nela estava incluído também Santiago.


Santiago, o Menor, por sua parte, foi lapidado no ano 63, por ordem de Ananías, pontífice de Israel e saduceu, quer dizer, da casta conservadora e pró-romana, e bastante materialista, já que rechaçava a imortalidade da alma e as recompensas póstumas. Esta execução, como teve lugar durante a suspensão do jus gladii, por ordem de Roma, e situou-se no intervalo de tempo que separou a saída do procurador Festo e a chegada de seu sucessor Albino, foi a causa da destituição de Ananías. De todo modo, a condenação foi aplicada por crimes de direito comum: banditismo, saques, ataque a mão armada, embora inspirados por motivos indiscutivelmente políticos, e os crimes de direito comum dependiam da justiça romana, não da do Sanedrín, pois este não julgava a não ser os delitos religiosos. Daí a sanção contra Ananías. E aqui temos a prova: "Uma vez morto Festo, Nero deu o governo da Judéia ao Abino, e o rei Agripa tirou o supremo sacerdócio de José, para dar ao Ananías, filho de Ananías. Esse Ananías pai foi considerado como um dos homens mais afortunados do mundo, já que gozou tanto como quis de tal dignidade, e teve cinco filhos, que a possuíram, todos, depois dele, coisa que jamais aconteceu a nenhum outro. Ananías, um deles, e de que falamos agora, era um homem audaz e empreendedor, e da seita dos saduceus, que, como dissemos, são os mais severos de todos os judeus, e os mais rigorosos em seus julgamentos. Escolheu o período em que Festo tinha morrido, e Albino ainda não tinha chegado, para reunir um conselho ante o que fez apresentar-se ao Santiago, irmão de Jesus, de apelido o Cristo, e a alguns outros, acusou-os de ter transgredido à Lei, e os condenou a ser lapidados. Esta ação desagradou extraordinariamente a todos aqueles habitantes de Jerusalém que tinham piedade e um verdadeiro amor pela observância de nossas leis. Enviaram secretamente ao rei Agripa, para lhe rogar que ordenasse ao Ananías que não voltasse a fazer nada semelhante, já que o que fizera não tinha desculpa. Alguns deles foram ante Albino, que fora à Alexandria, para lhe informar do que acontecera, e lhe comunicar que Ananías não poderia nem deveria reunir esse conselho sem sua permissão. Ele entrou em seus sentimentos e escreveu ao Ananías encolerizado e ameaçando-lhe com que o faria castigar. Agripa, ao lhe ver tão irritado contra ele, retirou-lhe o supremo sacerdócio, que não tinha exercido mais que durante quatro meses, e o concedeu ao Jesus, filho de Damneus.
"Quando Albino chegou à Jerusalém, empregou toda sua atenção em devolver a calma à província, mediante a morte de uma grande parte desses ladrões. Nesses mesmos tempos, Ananías, que era um supremo sacerdote de grande mérito, ganhava o coração de todo o mundo. Não havia ninguém que não o honrasse, por causa de sua liberalidade". (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XXI, VIII).
É perfeitamente evidente que todo esse fragmento do manuscrito de Flavio Josefo sofreu modificações dos monges copistas, e além modificações pouco inteligentes. Porque:
a) Nos diz que Ananías e seus filhos sucederam no supremo sacerdócio, e ao mesmo tempo que um deles sucedeu a um tal José. Há, portanto, contradição;
b) Nos diz que Santiago, irmão de Jesus (é Santiago, o Menor, porque o Maior morrera com Simão-Pedro no ano 47), foi lapidado junto com alguns outros por ter transgredido à Lei judia. Agora bem, essa mesma Lei judia, da qual os saduceus eram observadores tão estritos, proíbe pronunciar várias condenações de morte no mesmo dia. Contra isso é contra o que protestaram os habitantes de Jerusalém, mas não contra o fato de condenar a violadores da Lei, porque o fato de protestar por isso seria violar também a Lei... Santiago, o Menor, e esses "outros" foram, pois, julgados e condenados por outros motivos? Quais? Aqui estão:
c) O último parágrafo dessa citação nos diz que Albino "empregou toda sua atenção em devolver a calma à província, mediante a morte de uma grande parte desses ladrões." Mas, onde se tinha falado de ladrões em todo o texto precedente? Em nenhuma parte. Ao menos não no relato dos monges copistas, porque no de Flavio Josefo sim que se falava! Quão mesmo nos capítulos precedentes, já que nos detalha as exações dos sicários.
De fato, a passagem que os monges copistas suprimiram cuidadosamente nos dava, com efeito, o relato da execução de "Santiago (Jacobo), irmão de Jesus, de apelido o Cristo", mas não se tratava somente da violação dos usos religiosos da Lei judia, mas sim de uma violação do direito comum puro e simples. Nessa passagem retirada pelos copistas figurava o termo de "ladrões", já que a ele se refere a continuação. Mas nossos copistas mais ou menos ignorantes, tendo em conta a época (alta Idade Média), soletrando penosamente linha por linha, seguindo com o dedo, palavra a palavra, não liam tão comodamente como nós, e não viram que sua interpolação não enquadrava com a continuação do texto.
A fim de evitar utilizar uma tradução contemporânea que pudesse refletir os apliques ideológicos e as preferências religiosas dos tradutores, tomam o texto de Flavio Josefo na tradução de Arnauld d'Andilly (1588-1674), tradutor de várias obras religiosas, irmão maior de Antoine Arnauld, o "grande Arnauld", defensor dos jansenistas contra os jesuítas, e de Angélique, sua irmã, abadessa de Port-Royal.
Santiago, o Maior, morreu, pois, numa idade bastante avançada, por volta do ano 63 de nossa era. E sua morte será muito rapidamente vingada por seu sobrinho Menahem, neto de Judas da Gamala, e esse Menahem fará dar morte ao Ananías, em Jerusalém no curso da revolução de março do ano 64, que preludiou a grande guerra judia que se declarou oficialmente no ano 66. (36)
"Toda sua vida -conta-nos Epifano- Santiago se absteve de banhos, e não cortou nem os cabelos nem a barba". Sua morte foi a de um judeu ortodoxo somente, segundo Flavio Josefo. Mas Hegesippo, citado por Eusebio da Cesaréia (cf. História eclesiástica, II, XXIII), assegura-nos que foi a de um bom cristão. Pouco limpo, em todo caso. E fica o "irmão Santiago", chamado o Maior. Segundo os Atos dos Apóstolos (12, 1), Herodes Agripa I o mandou decapitar em Jerusalém. Isso é pouco provável, dado que tal soberano era piedoso, indulgente e bom (cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XIX, VII). "A natureza desse rei o inclinava a ser benevolente por seus dons e a tentar dar a seus vassalos um alto conceito de sua soberania... Alegrava-lhe agradar às pessoas, gostava que lhe elogiassem seu modo de vida, coisa em que era totalmente diferente do rei Herodes (o Grande), seu predecessor". (Op. Cit.) Seu comportamento com Simão-Pedro confirma o fato por Flavio Josefo (veja o capítulo 6).


Como conclusão diremos que Santiago, o Menor, foi lapidado, efetivamente, por ordem de Ananías, pontífice de Israel, por atividades zelotes e como guerrilheiro mais ou menos misturado com atos de banditismo, no ano 63 de nossa era, e que Santiago, o Maior, fora crucificado no ano 47, por ordem de Tibério Alexandre.
8 - André, aliás Lázaro
Santo André, crucificado, prega durante dois dias à vinte mil pessoas. Todos lhe escutam, cativados, mas ninguém pensa em liberá-lo...
JULES RENARD, Journal
Este fim em uma cruz em forma de sinal de multiplicação concorda com a tradição mais comum. De todo modo, São Pedro Crisólogo, em seu Sermão 133, assegura que foi pendurado numa árvore.
Veremos no que segue que houve uma terceira solução, a crucificação romana, provavelmente.
Esse personagem aparece citado em Mateus (4, 18, e 10, 2), Marcos (1, 29; 3, 18; 13, 3), João (1, 41; 6, 9; 12, 22), e nos Atos (1, 13).
Eusebio da Cesaréia o cita deste modo em sua História eclesiástica, em III, I; II, e em III, XXXIX, 4. Este autor declara que os Atos de André são considerados como apócrifos em sua época, dado que só o receberam seitas heréticas cristãs já separadas da grande Igreja geral.
Em III, 2, 1, já citado, diz simplesmente que André, "por isso conta a tradição, obteve a Escitia". Citado também ao Papías, "ouvinte de João e discípulo de Policarpo", diz-nos Irineu, mas cujas obras, claro está, desapareceram, o que faz com que possa ficar em sua boca o que alguém queira. E a prova é: "Papías, no prefácio de seus livros, não se mostra jamais a si mesmo como se fosse alguma vez ouvinte ou espectador dos Santos apóstolos. Mas nos diz que ele recebeu quanto se refere à fé dos que os conheceram... Se em algum lugar chegava alguém que estivera em companhia dos presbíteros, eu me informava das palavras dos presbíteros: o que dissera André, ou Pedro, ou Felipe, ou Tomás, ou Santiago, ou João, ou Mateus, ou algum outro dos discípulos do Senhor; e o que dissera Aristion, e o presbítero João, discípulo do Senhor". (Eusebio da Cesaréia, História eclesiástica, III, XXXIX, 2-4). E isso é tudo o que nos diz sobre André. É pouco.
Observemos, entretanto, que esse vocábulo não é um nome judeu de circuncisão. Deriva do grego Andrôs (homem), e mais concretamente de Alexandrôs (homem vencedor). Agora bem, segundo opinião de Dom J. Dupont, O. S. B., professor da abadia de Saint-André, que traduziu e anotou os Atos dos Apóstolos no marco da Bíblia de Jerusalém, esse nome não seria em realidade a não ser a forma helenizada de Eleazar (cf. Os Atos dos Apóstolos, Editions du Cerf, Paris, 1964, P. 58, nota referente ao IV, 17). Em Dom J. Dupont, beneditino, podemos confiar! Alexandrôs, em grego, deu Andreas em latim, e Alexis e Alex em diversas línguas, especialmente eslavas, e em grego seguiu como Andreas. Pois bem, Eleazar, no Novo Testamento, nos apresenta sempre sob a forma contraída de Lázaro. (37) Ele foi o compadre da famosa "ressurreição"; voltaremos para isso no próximo capítulo. E não em vão as diversas correntes do iluminismo dos Rosacruzes fizeram dele o patrão dos iniciados, quer dizer, daqueles que estão no segredo.
Por conseguinte, e primeira constatação, o misterioso André, cujo nome de circuncisão nos oculta, não é outro que Eleazar, aliás Lázaro. Ele é o pseudo-ressuscitado. Desde onde seu papel esotérico no corpus dos alquimistas, onde se encontram símbolos como o Phenix, que renasce de suas próprias cinzas, e, como por acaso, sobre uma pira composta por quatro ou dois troncos de madeira, dispostos em forma de cruz de Santo André. Também é o "X", imagem da incógnita em um problema sem resolver. Para nós, leitor, esse problema por fim já está resolvido.
A Epístola de Clemente de Roma menciona a lenda de fênix para simbolizar a ressurreição: "Consideremos o estranho prodígio que se opera nas regiões do Oriente, quer dizer, na Arábia. Ali se vê um pássaro, chamado fênix. É o único de sua espécie, e vive quinhentos anos. Quando se aproxima seu fim, constrói-se com incenso, mirra e outros aromas, um sepulcro, onde penetra para morrer nele, quando se cumpriu seu tempo. De sua carne em putrefação nasce um verme que se alimenta da podridão do pássaro morto, e logo se cobre de plumas. Quando se fez forte, levanta o féretro onde repousam os ossos de seu progenitor e, com esse casulo, voa da Arábia ao Egito, até a cidade de Heliópolis. Ali, em pleno dia, aos olhos de todos, vai voando a depositá-lo sobre o altar do Sol, depois do qual empreende o vôo de volta. Então os sacerdotes, consultando seus anais, constatam que retornou após quinhentos anos". (Cf. Clemente de Roma, Epístola aos Corintios, XXV).
Assim, na época da redação da Epístola (século I) não se ignorava que André e Lázaro não eram a não ser uma mesma pessoa, já que a fênix constituía a chave esotérica da lenda. Por outro lado, a partir do século XVIII e a aparição dos graus elevados da franco-maçonaria, vemos que os manuscritos rituais mais velhos nos representam um grau hierárquico que leva esse vocábulo: "Cavaleiro Rosacruz, e é o título que lhe convém melhor); Cavaleiro da Águia (...), Cavaleiro do Pelicano (...), Maçom de Heredom (...), Cavaleiro de Santo André (...)". (Cf. Manuscrito da Instruction générale du grade de Chevalier Rosacruz, pelo Devaux D'Hugueville, datado de 1746, no G. Bord, La Francmaçonnerie le France, Paris, 1908, P. 512 e ss.). Em seu Introduction, Devaux D'Hugueville recorda que a jóia habitual, que representa ao santo em sua cruz típica, às vezes é substituída em certos Estados por "uma medalha da Ressurreição" (sic). A jóia maçônica que adorna o sautor vermelho vivo distintivo desse grau representa, além disso, um compasso coroado, apoiado sobre um quarto de círculo, que leva em sua cara um pelicano alimentando a seus pequenos, e na outra cara uma fênix sobre sua fogueira de ressurreição.


Observar-se-á que o manuscrito transcreve Rosacruz com um z, e não Rose-Croix. Lembrança discreta da verdadeira origem do termo. O hebreu "rosen-koroz" significa "príncipe arauto", e rôz (rosah) significa secreto, quer dizer, "arauto secreto" ou "arauto do segredo". Desde aí é de onde nasceu o nome, puramente imaginário, do personagem chamado Rozenkreutz ou Rosenkreutz.
Assim, os franco-maçons do século XVIII, ou ao menos os que codificaram o ritual iniciático, não ignoravam que o apóstolo André estava associado em sua lenda a um tema de ressurreição. E quem no Novo Testamento, além de Jesus, ressuscitara, a não ser Lázaro? (38) E mais ainda quando Jesus estava representado na outra cara da jóia como o pelicano que se sacrificava por seus pequenos. (39)
Sobre o fato de que ele fora também o patrão dos iniciados (latim: initium, começo) temos a prova nos Evangelhos canônicos. Ele é, com efeito, quem vai se ver antes, quando deseja ser apresentado ao Jesus. Para este, rei legítimo, senão legal, de Israel, Eleazar-Lázaro é algo assim como o grande chambelán. Isto nos precisa João (12, 20-22). Mas além disso tem em seu poder umas temíveis chaves, e os escribas anônimos que no século IV, sob a vigilância de Eusebio da Cesaréia e de outros diversos bispos, compuseram por ordem de Constantino os atuais Evangelhos canônicos (fazendo desaparecer a seguir os antigos, chamados apócrifos), esses escribas enredados nas redes de suas censuras, interpolações e extrapolações, sem querer deixaram subsistir algumas palavras da verdade. Julgue-se: Nos diz que André é o irmão de Simão-Pedro: "Caminhando, pois, junto ao mar da Galiléia, viu dois irmãos: Simão-Pedro, e André, seu irmão..." (Mateus, 4, 18, e Marcos, 1, 16). Está muito claro. Esses dois irmãos o são no sentido familiar do termo.
Muito embaraçados, como é de supor, pelo assunto, os exegetas modernos pretendem que esse irmão não seja a não ser um associado. Mas subsistem outros textos que provam que se tratava de perfeitos irmãos no sentido carnal e familiar do termo, já que em princípio inclusive tinham a mesma moradia familiar: "Logo, saindo da sinagoga, vieram à casa de Simão e André, com Santiago e João. A sogra de Simão estava deitada, com febre". (Marcos, 1, 29-31). Assim, esses dois irmãos tinham a mesma moradia familiar.
Por outra parte, as Homilias clementinas confirmam que tinham o mesmo pai, e que a morte deste os deixara órfãos. "Porque eu e André, meu irmão ao mesmo tempo carnal e ante Deus, não só fomos criados como órfãos..." (Cf. Clemente de Roma, Homilias clementinas, XII, VI). Que mais faltaria?...
E o Evangelho de Pedro nos diz o mesmo: "Quanto a mim, Simão-Pedro, e André, meu irmão, tomamos as redes e fomos ao mar". (Cf. Evangelho do Pedro, 58 a 60).
Agora recapitulemos de forma definitiva:
a) André, aliás Eleazar, aliás Lázaro, é o irmão de Simão-Pedro, e ambos são órfãos. Porque, com efeito:
b) Simão é o filho de Judas da Gamala, morto no ano 6 de nossa era, no curso da célebre revolução do Censo.
c) Agora bem, Simão é o irmão de Jesus: "Não é acaso o carpinteiro, filho de Maria, e o irmão de Santiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não vivem aqui entre nós?" (Marcos, 6, 3).
Por conseguinte:
d) Jesus, Simão, Santiago, André, José e Judas são, portanto, todos irmãos, e todos filhos de Judas da Gamala.
Por outra parte, tiveram irmãs (Marcos, 6, 3). Quais são?
Voltemos para os Evangelhos:
"Havia um doente, Lázaro, da Betânia, da aldeia da Maria e da Marta, sua irmã. Era esta Maria a que ungiu ao Senhor com ungüento e lhe enxugou os pés com seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava doente. Enviaram, pois, as irmãs a lhe dizer: "Senhor, que amas está doente"... (João, 11, 1-4).
"Marta, pois, assim que ouviu que Jesus chegava, saiu-lhe ao encontro; mas Maria ficou sentada em casa. Disse Marta ao Jesus: 'Senhor, se tivesse estado aqui, não tivesse morrido meu irmão',"... (João, 11, 20-21).
"Assim Maria chegou onde estava Jesus, vendo-lhe, ajoelhou-se a seus pés, dizendo: 'Senhor, se estivesse aqui, não morreria meu irmão'..." (João, 11, 32-33).


Agora bem, como acabamos de ver, João nos fala da unção que Maria tinha conferido ao Jesus. Mas onde comunicou antes este acontecimento? Em nenhuma parte! Temos que dar um salto para diante, para encontrar o relato da união nos versículos 1 a 7 do capítulo 12. Além disso, os textos antigos não pareceram tomar-se muito a sério seu trabalho.
E tanto mais que as duas passagens de João citados são absolutamente contraditórias no que se refere à atitude de Maria...
E aqui é onde nos espera a maior surpresa, e também o maior escândalo! Evocamo-lo discretamente na obra precedente. Ao final do presente capítulo levantaremos o véu. Aí o leitor poderá constatar a veracidade do que dizíamos ao princípio deste estudo, ou seja, que André tinha as chaves de muitos mistérios... Vamos agora a sua sorte final, e para isso joguemos à mão de nosso Flavio Josefo.
"Quando o rei Agripa morreu, como contamos no livro precedente, o imperador Claudio enviou ao Cassio Longino, (40) para suceder ao Marso, rendendo assim comemoração à memória do rei que, estando com vida, tinha-lhe pedido em numerosas cartas que Marso não presidisse mais os assuntos de Síria.
"Quando Fado chegou como procurador à Judéia, encontrou aos judeus de Perea em luta contra os Filadelfos (41) por causa de uma aldeia chamada Zia, cheia de pessoas belicosas, e cujos limites eram disputados por uns e por outros. As pessoas de Perea tinham tomado as armas, contra o parecer de seus chefes, e mataram numerosos filadelfos. Ao inteirar-se disto, Fado se irritou muito porque não lhe deixaram a seu cuidado decidir se foram ultrajados pelos filadelfos, e porque não temessem recorrer às armas.
"Fez-se, pois, com três de seus notáveis, que eram também responsáveis pela revolução, e os mandou encadear. A seguir mandou matar um deles, chamado Aníbal, e castigou com o exílio aos outros dois, Amram e Eleazar. Fez perecer deste modo ao Tholomaios, cabeça dos bandoleiros que, pouco depois, fora encadeado, e que causara os maiores males à Iduméia e aos árabes. A partir desse momento, Judéia ficou inteiramente purgada de bandoleiros graças ao zelo e à prudência de Fado. Este então mandou ir aos grandes pontífices e aos príncipes de Israel, e lhes convidou a depositar na cidadela Antonia as vestimentas sagradas e as roupas pontificais que o costume permitia revestir ao supremo sacerdote, para que estivessem, como antes, em poder dos romanos...". (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XX, I, 1 a 6).
Mas as coisas não acabam aí. Sigamos relendo ao Flavio Josefo:
"Na Judéia as coisas adotavam, de dia em dia, uma aparência pior, já que o país estava de novo cheio de bandoleiros e de impostores que enganavam ao povo. Cada dia Félix capturava a muitos destes e os fazia perecer como a bandidos. Eleazar, filho de Dinaios, que reunira a seu redor uma equipe de bandoleiros, foi capturado com vida graças a um estratagema. Depois de lhe dar sua palavra de que não lhe faria nenhum dano, persuadiu-lhe de que se apresentasse ante ele, e logo, depois de lhe fazer encadear, enviou-o à Roma..." (Cf. Flavio Josefo, Antigüidades judaicas, XX, VIII, 5).
Vejamos agora o manuscrito grego da Guerra dos judeus: "Apenas Félix ocupou seu cargo, declarou a guerra a esses ladrões que causavam estragos em todo o país desde fazia vinte anos, capturou ao Eleazar, seu chefe, e a outros vários com ele, e os enviou prisioneiros a Roma, e deu morte a outro número incalculável de bandidos..." (Cf. Flavio Josefo, Guerra dos judeus, II, XXI, manuscrito grego).
Antonio Félix foi procurador da Judéia no ano 51 de nossa era, e fazia já vinte anos que o chamado Eleazar causava estragos no país. A coisa remontava-se, por conseguinte, ao ano 30 aproximadamente, ano em que começa a revolução judia dirigida por Jesus, quem seria crucificado no ano 35. Tudo concorda cronologicamente, e mais ainda quanto que o ano 31 é o da detenção de João, o Batista. Ao inteirar-se Jesus, refugiou-se prudentemente em Tiro e Sidón.(42)
Notemos, por outro lado, em que os manuscritos eslavo e grego da Guerra dos judeus não levam indicação alguma sobre um suposto pai de Eleazar chamado Dinaios, ou Dineus no manuscrito de Antigüidades judaicas. Nós afirmamos que se trata aí de uma interpolação dos monges copistas medievais (os manuscritos são da Idade Média, não há outros). Porque que plausibilidade há em que Flavio Josefo desse a indicação referente ao pai de Eleazar nas Antigüidades judaicas, e não a repetisse na Guerra dos judeus, que foi posterior?
E como um judeu chamado Eleazar pode ter um pai chamado Dinaios ou Dineus, que são nomes respectivamente grego e latino, admitindo, além disso, que esses nomes estivessem em uso na Grécia e na Itália? Em hebreu há um nome feminino desse tipo: DINA, que significa "justa" (Gênese, 30, 21, e 34, 1). Há também um nome comum, ao mesmo tempo hebreu e caldeu: din', que significa "justiça" e "justo". E se tentamos reconstruir o vocábulo que designa ao chefe desses zelotes, temos então Eleazar-bar-ha-Din', quer dizer, Eleazar-filho-do-Justo. Dinaios ou Dineus não são então a não ser a tradução de apelidos hebraicos em grego e em latim, e não nomes. E esse "justo", que é o pai de Eleazar, irmão de Simão-Pedro, de Jacobo-Santiago, e dos outros irmãos, é evidentemente Judas da Gamala, o "herói" (em hebreu geber) da revolução do Censo.
Voltemos agora para a sorte de Eleazar aliás André, e sigamos com o Flavio Josefo: "Ele também (Nero César) nomeou procurador a esse mesmo Félix que capturou seiscentos bandidos com seu chefe e uma multidão de cúmplices deles, e os enviou ao César (Nero). Este fez crucificar a essa gentinha; quanto aos chefes, retirou-lhes incalculáveis riquezas e os deixou em liberdade". (Cf. Flavio Josefo, Guerra dos judeus, manuscrito eslavo, II, V).


Traduzamos: Os "cúmplices" desses seiscentos "bandidos" não eram outros que os camponeses que lhes abasteciam, e esses "bandidos" eram os guerrilheiros zelotes. De todo modo, é difícil imaginar o traslado por mar de semelhante multidão naquela época. Foram, efetivamente, crucificados, mas na Judéia, por ordem do procurador Félix, e só os chefes foram enviados à Roma, dado que Félix lhes prometera astutamente que ele não lhes faria mal. Eleazar-André caiu nesta armadilha. Não obstante Nero, a quem repugnavam as execuções inúteis, preferiu lhes fazer pagar fortes resgates, em troca da promessa de que se mantivessem tranqüilos, como acabamos de ver.
E a prova de que isto aconteceu efetivamente assim a temos em que aqui perdemos o rastro nominal de Eleazar-André. Dele nunca mais se voltou a ouvir falar, e para paliar esta carência da história verídica, entrou em cena a lenda, como declara monsenhor Dúchense em seu livro Les Origines du culte chrétien. E daí a aceitação cortês mas reticente do alto clero ortodoxo quando o Vaticano lhe fez restituir o crânio do apóstolo André, depois do encontro de Paulo VI e Atanágoras.
Entretanto, uma vez retornados à Judéia, depois de pagarem o resgate exigido por Nero, nossos zelotes não se mantiveram tranqüilos por muito tempo, e suas vinganças se exerceram imediatamente. Julgue-se: "Quando retornaram, entregaram-se à crimes de outro estilo, golpeando às pessoas em pleno dia em meio da cidade (Jerusalém), e sobretudo durante as festas; mesclavam-se com o povo, e sob suas vestimentas ocultavam umas adagas agudas (a sicca palestina), com os quais atravessavam seus adversários; a seguir plantavam-se diante da vítima e fingiam lamentar o que lhe acontecera e procurar o assassino. Sua primeira vítima foi o supremo sacerdote Jonathan, e seguiram muitos outros. Um medo horrível apoderou-se de todos, e cada um esperava cada dia a morte, como na guerra". (Cf. Flavio Josefo, Guerra dos judeus, II, V, manuscrito eslavo).
No que concerne às riquezas que serviram para pagar o enorme resgate desse irmão de Jesus e de seus discípulos imediatos durante seu curto cativeiro em Roma, procediam do imenso saque acumulado pelas lutas zelotes desde fazia quase um século. Demonstramos sua existência real, documentos em mão, no capítulo referente aos zelotes (capítulo 1).
Tudo isto, entretanto, demonstra-nos que:
a) Eleazar-André, seus seiscentos "bandidos" e a "multidão de cúmplices" deles, não eram bandidos ordinários e de direito comum, a não ser simplesmente guerrilheiros zelotes.


b) A natureza de suas atividades e o parentesco os relaciona ipso ipso com os zelotes do movimento anteriormente dirigido por Jesus, já que este último era seu chefe indiscutível, como demonstramos na obra precedente (segundo a obra do historiador protestante Oscar Cullmann, em seu livro Dieu et César). São os mesmos, o que explica que esse Eleazar-André, irmão de Jesus e de Simão-Pedro, fora também um de seus dirigentes, e com maior razão depois da crucificação de seus dois irmãos Simão e Santiago em Jerusalém, no ano 47.
Com eles estava também outro membro do estado maior primitivo de Jesus, e membro também, sem lugar a dúvida, da grande família davídica, já que formava parte dos Doze; nomeamos ao Bartolomeu, que durante as atividades de Eleazar-André ocupava-se de "evangelizar" a Iduméia e a Ambatenha de uma maneira muito peculiar. Logo estudaremos seu destino, depois da morte de Jesus.
Quanto à cruz em crucifica sobre a que teria morrido no Patras, aparece no século VIII, quando se converteu em patrão de Escócia.